Quem tem medo de uma boa adaptação?

Os Três MosqueteirosO que será que os amantes dos clássicos da literatura diriam se soubessem que Hollywood prepara uma nova versão da célebre obra de capa-e-espada Os Três Mosqueteiros, porém com algumas “pequenas” adaptações? Por exemplo, você poderia imaginar que o personagem D’Artagnan seria um samurai criado no Japão e que retornaria à França para vingar-se de Porthos, que no passado teria matado seu pai? Porthos, por sua vez, morreria na metade do filme e o Rei Luís XIII teria um affair com Rochefort. Ficou arrepiado só de pensar nessas mudanças na genial obra de Alexandre Dumas?

Pois é! Mas é mais ou menos assim que Hollywood trata diversas obras dos quadrinhos quando estas são adaptadas para o cinema. Com algumas honrosas exceções (caso de Sin City e 300), a grande maioria dos filmes baseados nos quadrinhos são absolutamente desrespeitosos com o original. Tudo bem, alguns personagens dos comics não podem ser considerados como obras imutáveis. É de sua característica uma certa evolução conforme o tempo. Principalmente se pensarmos nos personagens americanos, que são lançados em revistas mensais cujas tiragens são altas e, por isso mesmo, têm uma grande obrigação de manter um público fiel, mesmo que, para isso, aconteçam algumas mudanças em suas histórias originais. Mas, há certos parâmetros que já são tão clássicos que não há porque fazer qualquer Homem-Aranhaalteração! Ou você, alguma vez, poderia imaginar um Rei do Crime (Kingpin) que não fosse imenso, forte e branco? Muito menos poderia, sequer pensar, numa Lana Lang ou numa Alicia Masters que não fossem louras ou ainda, numa Lois Lane que não fosse morena e que conhecesse Clark Kent apenas quando este começasse a trabalhar no Planeta Diário. É também impossível imaginar Gwen Stacy sem ser o primeiro grande amor* de Peter Parker. Certo? Errado! Para Hollywood nada disso importa. X-Men, Super-Homem, Elektra, Quarteto Fantástico… Nem vou falar sobre eles agora. Tomemos como base a série do Homem-Aranha, cujo terceiro filme estreou na sexta-feira, dia 4 de maio.

O primeiro filme do cabeça de teia foi tão ruim, tão desrespeitoso com o personagem, com tantas mudanças em sua história clássica, que qualquer coisa que se faça agora na série – cujo quarto filme já está confirmado, com ou sem Sam Raimi –, não irá colocar um dos mais queridos personagens dos quadrinhos dentro de uma cronografia no mínimo plausível. Nem vou aqui falar de todos os absurdos que o roteirista, o diretor e os produtores fizeram (e olha que tem gente da Marvel na equipe). Vou comentar apenas alguns deles.

Harry Osborn é a cara do paiVamos começar pela escolha dos atores: Sou fã do Willem Dafoe, mas escolhê-lo para fazer o papel de Norman Osborn é completamente descabido. Da mesma forma, escolher James Franco para fazer seu filho Harry (desenho ao lado) e Kirsten Dunst para interpretar Mary Jane. Os três, nem com muita boa vontade, se parecem com os personagens. Mal comparando, é como escolher Halle Berry para fazer o papel de Jeannie se fossem fazer um filme baseado no famoso seriado Jeannie é um Gênio (I Dream of Jeannie). Ela é ótima, mas nunca para esse papel!!!

A boa notícia é que Rosemary Harris, como Tia May, e J.K. Simmons, como o inescrupuloso editor J.J. Jameson estão perfeitos. E neste terceiro filme, o Homem-Areia parece ter saído dos quadrinhos graças à caracterização do ator Thomas Haden Church.

Mary Jane na WikipediaMas a péssima escolha de certos atores não foi o pior do primeiro filme do Aranha. A Mary Jane do cinema é um personagem completamente equivocado e fora de contexto. Originalmente ela é uma garota extrovertida, de bem com a vida, totalmente diferente de sua personagem nas telas. Aliás, o primeiro filme do Aranha deveria começar com o romance de Gwendolyne e Peter. A força dessa personagem, e de seu pai, na vida de Parker (e dos leitores no Aranha) não tem precedentes. A história em que Gwen morre nas mãos do Duende Verde se tornou um grande clássico dos quadrinhos e é sempre lembrada como uma das melhores tramas já publicadas pela Marvel. Há até um verbete na Wikipédia a respeito. Só agora, no terceiro filme, é que se lembraram de colocar Gwen e seu pai. Mas, como era de se esperar, fora de contexto (é claro). Nem consigo imaginar o que os produtores da série pensam em fazer com esses personagens no quarto filme (se é que vão fazer alguma coisa).Spider Man - The Death of Gwen Stacy

E o Duende Verde, então? O que fizeram com o diabólico personagem nas telas nem ele merecia!… O que era aquilo?!!! Mais parecia um personagem saído de algum seriado dos Power Rangers!!! O excepcional desenhista Alex Ross criou uma caracterização bem plauzível para o Duende Verde do cinema, mas não foi aprovada (veja aqui). Os produtores preferiram aquela caracterização ridícula! O que é isso, companheiro?!

Outra detalhe importante não foi bem explorado no primeiro filme: a grande (e divertida) rivalidade entre Jameson e o Homem-Aranha! Nos quadrinhos era comum o Aranha fazer algumas brincadeiras com o editor, como por exemplo, pendurá-lo ou amordaçá-lo com sua teia em “agradecimento” à maneira “gentil” como ele é tratado nas reportagens do Clarin. No filme existe a rivalidade mas faltou essa irreverência.

Gosto do diretor Sam Raimi desde seu divertido filme Uma Noite Alucinante (Evil Dead), que mudou o gênero de terror nos cinemas. Darkman – Vingança Sem Rosto é outro filme que é pura história em quadrinhos. Mas, faltou ao diretor e aos produtores do primeiro filme do Homem-Aranha uma certa reverência ao personagem criado por Stan Lee e Steve Ditko. Afinal, esse personagem teve o mérito de introduzir, entre os super-heróis, um lado humano até então inédito nos comics. Há que se ter respeito com toda essa história.

O Homem-Aranha 3 é um ótimo filme de ação e aventura que a garotada vai curtir. Pena que o personagem foi tão mal adaptado e tão descaracterizado no primeiro filme.

Homem-Aranha X Homem-Areia* Antes de Gwen, Peter teve um affair com uma colega de turma e com a secretária de Jameson, Betty Brant… mas isso não foi nada demais ;>)

PS: Se você quer baixar alguns papéis de parede do Homem-Aranha, clique aqui. Para ampliar a imagem acima do Homem-Aranha do cinema, clique aqui. A cena ao lado mostra a luta do Homem-Areia contra o Homem-Aranha no cinema. Veja a semelhança com o desenho de abertura da história Nada Detém o Homem-Areia aqui.

4 comentários em “Quem tem medo de uma boa adaptação?

  1. Não concordo com suas plausível palavras sobre a adaptação de Homem Aranha 3. Só vale lembrar que quadrinhos, cinemas e desenhos animados seguem uma trajetoria distinta, mas com algumas características imutaveis. Portanto Homem Aranha 3 é um excelente filme tanto quanto ao roteiro que da uma continuidade a historia e a linguagem cinematografica do mesmo.Mas como já dizem gosto é gosto!!!

  2. Hã… Felipe… esse texto é sobre o primeiro filme do Homem-Aranha e sobre a mania de Hollywood de não respeitar os personagens dos quadrinhos em suas adaptações. Pouco escrevi sobre o terceiro filme aqui e nem nego que ele não seja excelente. Porém não acho que quadrinhos, cinema e animação tenham que seguir uma trajetória distinta. Isso sempre vai depender de quem são os responsáveis (ou irresponsáveis)pela adaptação.

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