Todos os tons eróticos de Valentina

Valentina e Neutron
Para a mulherada que está ouriçada com esses tons de cinza cinematográficos e, pior, tons de cinza em papel, sugiro a descoberta de Valentina, uma das mais eróticas personagens dos quadrinhos, criada por Guido Crepax em 1965. Valentina Rosselli é fotógrafa e surgiu como coadjuvante das aventuras de ficção-científica de Neutron, um desinteressante investigador que tem poderes especiais e é descendente de uma civilização subterrânea vinda de um lugar chamado Komyatan (pois é…). Mas logo a moça se tornou autônoma e tomou o lugar dele na história, tamanha a força de sua presença (ainda bem que Crepax viu o óbvio a tempo!). Ou seja, ela fez o que toda mulher interessante deveria fazer quando está ao lado de um boçal: tirar o cara da jogada!
Valentina: sexo na praia.
Belíssima, Crepax a desenhou inspirado-se na musa do cinema mudo, Louise Brooks, com cabelos negros curtos e olhos azuis. Depois que saiu da sombra de Neutron, as histórias da fotógrafa passaram a ter um forte conteúdo erótico com muitos momentos alucinantes de fetichismo e sadomasoquismo, e mostram uma mulher assumidamente bissexual, descolada e desinibida, sem ser vulgar.
Valentina, publicada na revista Grilo #33
Se existisse, Valentina teria feito 72 anos no dia 25 de dezembro de 2014. Ela nasceu em Milão em 1942. Tudo isso pode ser confirmado no livro Valentina: Biografia de Uma Personagem, lançado pela L&PM. A obra traz as suas primeiras histórias, desde a sua infância até o nascimento de seu filho. São elas: Intrépida Valentina, Intrépida Valentina de Papel, A Curva de Lesmo (que é a história onde conhece Neutron) e O Bebê de Valentina. Uma boa notícia, já que os poucos livros de Valentina lançados no Brasil estavam esgotados.
Valentina
E, só para finalizar, o fato é que, provavelmente, a “escritora” Erika Leonard James jamais leu nada de Crepax, caso contrário, provavelmente não teria o atrevimento de escrever tantos tons de cinza… Para Crepax bastaram o preto e o branco. E muita ousadia gráfica em seus desenhos.

Conheça o site oficial Valentina, de Guido Crepax, aqui.

Valentina em Riflesso. Publicada na revista AlterLinus #5

Valentina em Riflesso

valentina

 

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Ken Parker, o homem que veio das montanhas

Quando Sydney Pollack resolveu filmar o clássico faroeste Jeremiah Johnson (Mais Forte que a Vingança, no Brasil), com Robert Redford (veja o trailer no YouTube), a partir de um emocionante roteiro baseado em dois livros – Mountain Man, romance de Vardis Fisher, e Crow Killer, uma história real escrita por Raymond W. Thorp e Robert Bun-ker –, ele jamais poderia imaginar que sua realização inspirasse Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo, dois dos maiores artistas italianos, a criar uma história em quadrinhos que se tornaria lendária. Mas foi a partir do conceito deste filme que surgiu Ken Parker, um dos mais cultuados personagens das histórias em quadrinhos italianas. “Rifle Comprido”, como é chamado pelos índios, é o próprio Redford desenhado. Em sua primeira aventura, ele ainda é um caçador que vive nas montanhas e vende peles de animais para sobreviver. E a semelhança com a realização de Pollack termina aí.

Para desenvolver as aventuras de Ken Parker, o roteirista Giancarlo Berardi e o desenhista Ivo Milazzo não trilharam o lugar-comum. Criativos e conscientes de que suas histórias ultrapassam o simples entretenimento, eles jamais iriam buscar o lugar comum em roteiros de faroeste. Na época, início da década de 1970, os dois trabalhavam nas histórias de Tiki, Il Ragazzo Guerrero, com as aventuras de um jovem índio da tribo Carajás, na Amazônia, que denunciavam a violência da região, o abuso das autoridades e o massacre de aldeias indígenas. Como se vê, argumentos pouco usuais, principalmente se considerarmos o período em que elas foram criadas.

Depois que a série de seis episódios de Tiki chegou ao fim, Berardi e Milazzo enfim, puderam se dedicar ao novo personagem. E em 1977 Ken Parker foi lançado na Itália, inicialmente para ter poucas histórias. Mas a nova revista se torna um sucesso, que se mantém por vários anos. Foram 59 edições regulares, além de uma série de 18 edições extras, e alguns álbuns especiais. A novidade é que, além de criarem aventuras absolutamente cinematográficas, Berardi e Milazzo incluem em suas histórias diversas referências culturais, sejam elas vindas do cinema, das artes plásticas, da literatura, além de referências históricas. Assim, os leitores da história em quadrinhos, viam personalidades como Marilyn Monroe (acima), Edgar Alan Poe, John Ford, Davy Crockett, Sherlock Holmes, King Kong (sim, o macaco também) e tantos outros, cruzarem o caminho de Rifle Comprido, um herói improvável, que muitas vezes se vê no olho do furacão, mas que sempre escolhe o lado do mais fraco e justo.

Ken Parker e a greve proletária: Milazzo e Berardi fazem uma homenagem ao famoso quadro O Quarto Estado, de Giuseppe Pellizza, que se tornou símbolo da luta dos trabalhadores, na história Um Hálito de Gelo. Acima, a versão colorida. Abaixo, o quadrinho que aparece na aventura.

No Brasil, a série original de Ken Parker foi lançada pela Editora Vecchi em novembro de 1978 e só terminou de ser publicada em no número 56, de agosto de 1983, ano em que a editora fechou as portas, deixando os leitores brasileiros sem as últimas seis aventuras (na Itália, a série durou 59 edições). Assim, o personagem ficou afastado das bancas brasileiras – exceto por algumas poucas edições esporádicas – até o ano 2000, quando a Mythos Editora passou a publicar uma nova série de Ken Parker, com 18 edições (batizada, na Itália, de Ken Parker Magazine). Além desta iniciativa, a Tendência Editorial e, em seguida, o Clube dos Quadrinhos-Cluq iniciaram o relançamento de toda a série clássica em formato maior e tiragem limitada, incluindo as quatro últimas aventuras que não haviam sido publicadas no Brasil (a editora Best News tentou continuar a série no início dos anos 1990 a partir do ponto que a Vecchi deixou, mas não passou de duas edições). Na verdade, esse relançamento foi uma iniciativa – e um verdadeiro tour de force – do editor Wagner Augusto, do Cluq, que passou a ter os direitos sobre os produtos de Berardi/Milazzo no Brasil.

Agora, novamente o Cluq é responsável pelo lançamento de quatro livros com aventuras inéditas de Ken Parker, publicadas originalmente na segunda metade da década de 1990 na Itália. Cada volume é encadernado com capa dura, tem mais de 180 páginas e é impresso em papel couchê. Os dois primeiros, lançados no final de 2013, são Os Condenados, no qual Ken Parker é prisioneiro numa colônia penal, e Nos Tempos do Pony Express, que relata as aventuras do herói quando adolescente. Neste início de ano chegam As Aventuras de Teddy Parker, que narra o encontro de pai e filho, e Cara de Cobre, emocionante história baseada num caso verídico sobre um índio que teve sua aldeia dizimada.

Wagner Augusto está à frente da bem cuidada edição e recebeu elogios da crítica especializada até na Itália, que considerou os quatro livros “belíssimos e elegantes”. Como é uma tiragem bem limitada, os quatro volumes não são encontrados na maioria das livrarias mais conhecidas. Mas, quem se interessar, pode encomendá-los no site comix.com.br ou pedir diretamente ao Cluq: Caixa Postal 61105, São Paulo, SP (cluq@terra.com.br).


Os novos livros de Ken Parker têm tratamento refinado: acima, uma página de As Aventuras de Teddy Parker; abaixo, uma página de Cara de Cobre.

Quem é Márcio Moura, o repórter?

22-2000 Cidade Aberta #1
Se você acha que Waldomiro Pena (de Plantão de Polícia), Pedro e Bino (de Carga Pesada) são alguns dos primeiros heróis de seriados de tv nacionais produzidos pela Rede Globo, está enganado. Bem antes, no longínquo ano de 1965, estreava no mês de maio na tela da Globo a série nacional 22-2000 – Cidade Aberta, estrelada por Jardel Filho, na pele do intrépido repórter Márcio Moura, e Claudio Cavalcanti, como o jovem Carlinhos, “foca” na Redação e amigo do repórter. Os dois trabalham na editoria de Polícia do jornal O Globo e tentam desvendar casos de crime e mistério para suas reportagens. Isso os coloca frequentemente em perigo. Cada episódio tinha duração de 30 minutos e apresentava uma história completa. Segundo depoimento do ator Claudio Cavalcanti (que pode ser assistido aqui), ele próprio fazia várias cenas de perigo e a série era toda filmada em película, e não em vídeo.
Trinta Moedas
Com o sucesso de 22-2000 – Cidade Aberta, a Rio Gráfica e Editora lançou, em 1966, a adaptação dessa série para os quadrinhos. Era uma revista bimestral impressa em preto e branco e desenhada por Edmundo Rodrigues. As histórias eram as mesmas exibidas na tv. Assim, o primeiro episódio – Trinta Moedas – foi publicado no número 1 da revista, juntamente com O Rapto de Miss Brasil. Nos números seguintes se manteve esse padrão de duas aventuras por edição. A RGE já havia lançado com grande sucesso outro policial: As Aventuras do Anjo, baseado na rádio-novela de mesmo nome.
Rapto de Miss Brasil
Mas a nova revista em quadrinhos da RGE não durou muito tempo. Foram apenas cinco edições publicadas em menos de um ano. Com o fim da série, em 1966, depois de exibidos 30 episódios, a revista foi cancelada também. Assim, as aventuras do repórter Márcio Moura ficaram na lembrança dos telespectadores e dos leitores da revista.

Para saber mais sobre a série da Globo, visite este link.

Abaixo, a capa da última edição, desenhada por Walmir Amaral.
22-2000 Cidade Aberta #5
Curioso em saber o que significa o número 22-2000, que dá nome ao seriado? Este era o número do telefone do jornal O Globo, na época. Era o número real mesmo!
Márcio Moura e o editor de O Globo
22-2000-simca-nt

Disney: 90 anos animados

Cinquentenário Disney
Em novembro de 1973, quando Walt Disney fez 50 anos de carreira, a Editora Abril publicou o livro Cinquentenário Disney, que apresentou as primeiras aventuras em quadrinhos de todos os principais personagens Disney, entre eles Horácio e Clarabela, Pluto, João Bafo-de-Onça, Pateta e, claro, Mickey, Minie e Pato Donald. O livrão tinha capa dura, formato grande (21×28 cm) e 188 páginas coloridas. O próprio Disney é o mestre de cerimônias do livro. Ele participa interligando as histórias e contracena com vários personagens, como mostra o quadrinho abaixo.
Walt Disney, Mickey e Minie
O texto de introdução do livro resume o início da jornada profissional de Disney com o seguinte relato: “Cinquenta anos atrás, mais precisamente em agosto de 1923, dois jovens, Walt e Roy Disney, começavam suas atividades no campo do desenho animado, em uma pequena garagem, na Califórnia (EUA). Passarem-se cinco anos sem que o talento criador dos dois irmãos fosse reconhecido, até que em 29 de outubro de 1928 estreou com grande sucesso o primeiro desenho animado sonoro nas telas dos Estados Unidos! Título do filme: Steamboat Willie. Seu criador: Walt Disney. Em Steamboat Willie, o personagem principal era um simpático ratinho chamado Mickey que, mais tarde, seria a marca registrada de Walt Disney em todo o mundo. Das telas para a história em quadrinhos foi um passo. Assim, em 1930 Mickey passou para as tiras diárias dos jornais da época. Logo depois, para acompanhar o irrequieto Mickey em suas aventuras, Disney criou a Minie, o Horácio, a Clarabela, o Pluto, o João Bafo-de-Onça, o Pato Donald, o Macha Negra, enfim, todos os personagens que, vindos das telas dos cinemas, como Mickey, ou criados especialmente para as histórias em quadrinhos, são hoje bem conhecidos de todos nós.”
Mickey: Lost on a Desert Island
Há uma pequena incorreção no texto de introdução, já que a namorada do Mickey não foi criada “depois”. Na realidade, Minie já aparece em Plane Crazy, o verdadeiro primeiro desenho animado estrelado por Mickey, realizado no início de 1928. Acontece que essa animação era muda e acabou não sendo lançada comercialmente nesse ano. Mas, com o sucesso de Steamboat Willie, Disney resolveu sonorizar Plane Crazy e relançá-lo em março de 1929.
Mickey: Lost on a Desert Island
A primeira história em quadrinhos do Mickey estreou em tiras de jornais dos Estados Unidos em janeiro de 1930 e se chamou Lost on a Desert Island. Ela foi adaptada para o formato de revista e publicada em cores nesse livro comemorativo com o título de Mickey Contra os Canibais, mas com alguns cortes. As três últimas imagens do Mickey que ilustram este texto foram extraídas dessa história.
Mickey: Lost on a Desert Island
Em 2013, Disney completa 90 anos de carreira. Isso mereceria uma outra edição de luxo em homenagem à sua carreira. 40 anos depois da comemoração de seu cinquentenário, ele não mereceria ser lembrado? Mas os tempos são outros…

Walt Disney nasceu em 5 de dezembro de 1901, em Chicago.

Batman: Bigger and Better

Capa de Nela Adams
O número 241 da revista Batman, da DC Comics, lançada nos Estados Unidos em maio de 1972 (ou seja, há quase 41 anos!) foi uma edição especial com 52 páginas. Normalmente essas revistas em quadrinhos tinham, por padrão, apenas 36 páginas e o preço era de 20 cents. Mas essa foi uma época em que a DC aumentou o número de páginas de algumas de suas mais populares revistas em quase um terço, subindo o preço de capa a um percentual bem menor. A garotada pagava apenas um quarto de dólar, ou seja, 25 cents, para ter ainda mais aventuras com seus heróis preferidos. Essa campanha foi chamada de “Bigger and Better” e visava, claro, aumentar as vendas das revistas. A capa desta edição é uma das mais icônicas já publicadas com o Homem-Morcego. Ela foi desenhada por Neal Adams, que estava envolvido na revitalização do personagem.

Baixe aqui wallpapers feitos a partir de imagens desta revista!
At Dawn Dies Mary MacGuffin!
A revista publicou três histórias. A primeira se chama At Dawn Dies Mary MacGuffin! e foi roteirizada por Denny O’Neil e desenhada pela dupla Irv Novick e Dick Giordano, que procuravam manter o estilo que Neal Adams imprimiu ao Cruzado de Capa (como se pode ver nas três páginas da história reproduzidas nesta postagem).

Página 6
A segunda história é uma aventura solo de Robin, “The Teen Wonder” escrita por Mike Friedrich e desenhada por Rich Buckler. A aventura, que continua na edição seguinte, foi chamada de Secret of the Psychic Siren e teve a participação especial de Kid Flash, seu companheiro de lutas na Turma Titã.
Robin, The Teen Wonder
Para completar a edição, uma aventura clássica de Batman and Robin, publicada no número 5 da revista, em 1941. Come Down Memory Lane foi escrita por Bill Finger e desenhada pelo criador do personagem: Bob Kane. Na 9ª página da história, um suspense: Batman encontra Robin mortalmente ferido e, ao ver o Cruzado de Capa carregando o corpo inerte do garoto, o leitor tem a sensação de que é o fim do Menino-Prodígio. Mas que nada. Nos três últimos quadrinhos Robin aparece sorridente deitado na cama de um hospital vestindo o seu uniforme (isso mesmo: deitado com uniforme, com máscara e tudo!!!) ao lado de Batman, que também está acamado recuperando-se de um ferimento. E o Homem-Morcego não perde a pose! Está com o seu uniforme!!! É sério! Essas histórias eram muito bobas mesmo!  :)
Batmovel
Batman e Robin
Leia mais sobre Batman, neste link.

Nunca houve uma Mulher-Gato como Julie…


Uma linda mulher… sensualíssima, adoravelmente divertida e maliciosa. Nunca houve uma gata como Julie Newmar!

A paixão segundo Joe Kubert

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Joe Kubert era um gigante. Talvez não seja tão simples defini-lo em uma palavra. Mais complicado será falar sobre ele sem exagerar nos adjetivos. Kubert é um nome fundamental na História das histórias em quadrinhos. Ele se transformou em uma lenda há muito tempo, não só por ter criado um traço personalíssimo e dinâmico, perfeito para dar vida a personagens selvagens e aventureiros como Tarzan, Sargento Rock, Gavião Negro, Tor (abaixo), Ás Inimigo e tantos outros. Mas seu talento também norteou o trabalho de grandes artistas, que deram seus primeiros passos na bem sucedida escola criada por ele e sua esposa, Muriel, em 1976. Na verdade, Kubert sempre foi um apaixonado pelo seu trabalho, tanto como desenhista, quanto como editor, escritor e professor, inspirando inúmeros autores por todo mundo.Tor05fev77-kubert-ebalnt

Filho de pais judeus, Yosaif (ou Joseph) Kubert nasceu em 18 de setembro de 1926 numa pequena cidade chamada Yzeran, que ficava na Polônia e hoje faz parte da Ucrânia. Sua família emigra para os Estados Unidos quando tinha pouco mais de dois meses de vida e passa a viver no Brooklin.

Durante sua infância, ele descobre sua paixão pela arte de desenhar e, com o apoio dos pais, torna-se um talento precoce. Há controvérsias quanto à época em que começou a trabalhar como desenhista iniciante. Na introdução de sua graphic-novel Yossel, Kubert escreveu que ele recebeu cinco dólares por página quando tinha 12 anos. “Em 1938, isso era muito dinheiro”, afirmou.

A partir daí, não parou mais. Fã de Hal Foster, Alex Raymond e Milton Caniff, o jovem trabalhou para diversos estúdios e com os mais diferentes personagens e gêneros, desde ficção-científica até faroestes e histórias de guerra. Em meados da década de 1940 ele passa a desenhar mais regularmente para a All-American Comics, editora que se tornaria, no futuro, a DC Comics; em 1945 Kubert começa a ilustrar um dos personagens que marcariam a sua carreira: Gavião-Negro (Hawkman).

SargentoRock02atirantNo início da década de 1950, Kubert inicia sua carreira de executivo ao aceitar o cargo de editor da St. John Publications. Ao lado do colega de escola Norman Maurer e do irmão deste, Leonard, ele desenvolve para a editora, em 1953, a primeira revista de quadrinhos em 3D do mundo, apresentando as aventuras de SuperMouse (Mighty Mouse), adaptação do famoso desenho animado infantil da época. O sucesso foi instantâneo. No mesmo ano ele lança as aventuras de Tor, personagem que vive numa época pré-histórica, e também ganha uma versão em 3D, aproveitando o sucesso dessa tecnologia.

Ao contrário do que era comum naquela época, os direitos autorais de Tor continuam nas mãos de Kubert e as aventuras desse herói são publicadas com relativo sucesso em diversas editoras ao longo da carreira do desenhista.

Em 1955 ele volta a desenhar para a DC Comics, inicialmente como free-lancer, mas logo estaria trabalhando exclusivamente para a editora. Neste ano ele intensifica uma frutífera parceria com o também lendário escritor e editor Robert Kanigher, que já conhecia desde os tempos da All-American Comics e com o qual desenvolveu diversas histórias de guerra e personagens de sucesso, como o Príncipe Viking, lançado em agosto de 1955. Mas foi em janeiro de 1959 que a dupla apresentou uma de suas mais importantes criações: o Sargento Rock (ao lado), publicado pela primeira vez na revista G.I. Combat. Chamado inicialmente de “The Rock”, o soldado que lutava contra os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial ganhou mais definição nas histórias seguintes e caiu no gosto dos leitores, transformando-se numa das séries mais duradouras dos comics americanos.
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Apesar de criar histórias de guerra, a dupla Kanigher-Kubert jamais glorificou os conflitos e sempre mostrou o lado humano de cada personagem retratado. Seguindo esta linha, a dupla novamente inova em 1965 ao apresentar para o público Ás Inimigo (Enemy Ace), um piloto da aviação que lutou durante a Primeira Guerra Mundial. Ele não era inglês ou americano. Era alemão. E isso fez toda a diferença. Kubert sempre gostou de ilustrar os roteiros de Kanigher, carregados de detalhes históricos e que exigiam muita pesquisa de época. Certa vez ele escreveu que seus roteiros tinham a capacidade de provocar sua imaginação: “Suas palavras tinham o poder de criar excitantes imagens dramáticas e dinâmicas em minha mente!”. Não foi por acaso que Ás Inimigo é considerado uma das melhores histórias de guerra já produzidas para os quadrinhos.
cabelosdefogo-thawk16-fev73ntAcima, Cabelos de Fogo, de Joe Kubert.
Publicado em fevereiro de 1973 na revista
Tomahawk n°16, da Ebal. Nesse mesmo
ano foi lançado também pela Ebal,
o álbum A Origem de Tarzan, que
mostra a morte de Kala (abaixo).
A origem de Tarzan - A morte de Kala
A partir de 1967 Kubert passou a ser Diretor de publicações da DC Comics. Cinco anos depois aceitou o desafio de readaptar os livros de Tarzan, de Edgar Rice Burroughs, para os quadrinhos (leia O traço selvagem de Joe Kubert). E assim ele criou mais uma obra-prima da arte seqüencial e o personagem de Burroughs retoma o status adquirido em seus primórdios, quando era desenhado por Hal Foster e Burne Hogarth.
A fúria de Tarzan
tarzan-kubert-devntDepois de deixar o cargo de Diretor na DC em 1976, a paixão de Kubert por sua arte e seu interesse em formar uma nova geração de artistas fazem com que ele e sua esposa fundem a The Joe Kubert School of Cartoon and Graphic Art, hoje conhecida internacionalmente como The Kubert School. Vários grandes artistas de sua geração foram professores de sua escola. E ela formou inúmeros novos talentos, como dois dos cinco filhos de Kubert, Adam e Andy, considerados nomes de grande expressão na indústria dos comics americanos. Os anos seguintes seriam de dedicação quase total aos seus alunos, mas sem deixar de desenhar quadrinhos.

Na década de 1990 Kubert voltaria a produzir histórias mais autorais. Em 1991 lançou Abraham Stone: Country Mouse City Rat para a Malibu Comics. Em 1994, ele recebeu a visita do célebre editor italiano Sergio Bonelli em sua residência. Este o havia convidado a ilustrar uma história especial do popular cowboy italiano Tex, mas Kubert teve que adiar a realização desse projeto para se dedicar exclusivamente à produção daquela que se tornaria sua nova obra-prima, a premiada graphic novel Fax from Sarajevo. Inédito no Brasil, este livro foi baseado numa série de faxes que seu representante na Europa, Ervin Rustemagiæ, enviou para ele relatando com detalhes a tragédia da guerra na Sérvia durante o massacre de civis em Sarajevo. Esta obra foi, finalmente, publicada em 1996. E a história de Tex (abaixo) foi lançada na Itália cinco anos depois, em 2001, com enorme repercussão.

Dois anos depois, Kubert voltaria às suas origens imaginando o que aconteceria se sua família não tivesse emigrado para os Estados Unidos e continuasse vivendo na Polônia. Esse foi o ponto de partida para a novela gráfica Yossel, lançada em 2003.

Neste ano ele também retornaria ao personagem que consagrou, com a minissérie Sgt. Rock: Between Hell and a Hard Place, escrita por Brian Azzarello, e três anos depois, com outra aventura estrelada pelo soldado: The Prophecy (ao lado). Em 2008, um novo retorno. Agora ao seu primeiro personagem na minissérie Tor: A Prehistoric Odyssey, publicada pela DC Comics. São desse período também as histórias autorais Jew Gangster e Dong Xoai, sobre a guerra do Vietnã.

Seu último trabalho publicado foi Before Watchmen: Nite Owl para a DC, onde ele arte-finalizou o desenho a lápis executado por seu filho Andy Kubert. Bem do jeito que ele fazia no início de carreira. Em outubro, estava previsto pela DC o lançamento de sua última incursão como quadrinista: a minissérie Joe Kubert Presents, com novas histórias gráficas, incluindo o retorno do desenhista ao seu Gavião Negro (Hawkman, abaixo).

Joe Kubert faleceu no dia 12 de agosto em decorrência de um tipo de câncer, um mieloma múltiplo, poucas semanas antes de completar 86 anos.

(Texto publicado originalmente no Jornal da ABI 381)

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O Fantasma de Gutemberg


A capa desta edição da revista Almanaque do Fantasma, publicada pela Rio Gráfica e Editora no início dos anos 70, foi desenhada por Gutemberg Monteiro, grande mestre dos quadrinhos que trabalhou nessa editora durante 20 anos e depois fez carreira nos Estados Unidos, onde trabalhou por mais 40 anos.

Naquele tempo a RGE mantinha um estúdio especializado na produção de histórias em quadrinhos com uma equipe de desenhistas e roteiristas do mais alto nível. Faziam parte dessa turma, nomes como Walmir Amaral, Evaldo, Lutz, Flávio Colin, José Menezes, Primaggio, entre muitos outros talentos, além de, é claro, Gutemberg. Era uma turma muito unida. Tanto que, quando Gutemberg esteve no Brasil de férias no início da década de 90, depois de passar muitos anos nos Estados Unidos, deu ao José Menezes a arte original dessa capa do Fantasma. Na dedicatória Gutemberg o chama de “irmão, amigo e colega”. Não é qualquer um que tem um original desses em seus guardados. Menezes tem. E se orgulha muito dessa amizade de anos!

Abaixo, a arte da capa com a dedicatória de Gutemberg ao amigo Menezes. Clique na imagem para ampliá-la.

Quadrinhos’51: uma exposição grandiosa


Você gosta de ver originais de histórias em quadrinhos? Então não perca a Exposição Quadrinhos’51, que foi criada para homenagear os grandes mestres das Histórias em Quadrinhos nacionais das décadas de 40 a 70 e também para lembrar aquela que é considerada a primeira exposição didática internacional de Histórias em Quadrinhos do mundo, organizada em São Paulo em 1951 por Álvaro de Moya, Jayme Cortez, Syllas Roberg, Reinaldo de Oliveira e Miguel Penteado.

Quadrinhos’51 ficará aberta ao público até o dia 26 de maio no Museu Belas Artes de São Paulo (MuBA), onde estarão expostos desenhos originais de alguns dos mais importantes artistas desse período, além de esboços e de publicações raras editadas nessas décadas.

No alto, desenho de uma página de quadrinhos de Eugênio Colonnese para a revista Mirza, A Mulher-Vampiro. Ao lado, Raimundo, o Cangaceiro, de José Lanzellotti.

O público terá uma chance raríssima de ver de perto a técnica e o talento de desenhistas que produziram obras inesquecíveis numa época em que as histórias em quadrinhos eram perseguidas violentamente por setores da sociedade que insistiam em desqualificar essa arte com argumentos preconceituosos. Mas, a despeito de toda a intolerância, os quadrinhos se impuseram como uma nova linguagem através da força dessa geração de profissionais.

Os originais estão marcados pelo tempo e alguns têm colagens e instruções para impressão, e dão a exata dimensão de como eram produzidos os quadrinhos naquele tempo, além de mostrar a técnica de cada desenhista.

Dentre os trabalhos selecionados, o público dessa mostra poderá apreciar artes-finais de Jayme Cortez, Gutemberg Monteiro, Álvaro de Moya, Antonino Homobono Balieiro (acima), Primaggio, Rodolfo Zalla, Shimamoto, André Le Blanc, Eugênio Colonnese, José Lanzelotti, Izomar, Rubens Cordeiro entre outros gênios do traço. A Exposição Quadrinhos’51 também mostrará originais de desenhistas estrangeiros como E.T. Coelho, Will Eisner, Jerry Robinson, Jim Davis, Mort Walker, Leonard Starr, Serpieri.

Publicações raras de inestimável valor histórico também são exibidas graças ao zêlo de nosso amigo, o colecionador Adriano Rainho, que cedeu gentilmente exemplares de O Pato Donald, n°1; Pererê, n°1, do Ziraldo (acima); Raio Vermelho n° 10 (de 1951), Capitão Radar, Zas Traz número 1 (a revista editada por Jayme Cortez que publicou as primeiras histórias em quadrinhos do Mauricio de Sousa) e muitos outras raridades. Do acervo de Álvaro de Moya o visitante verá também preciosidades como a revista Mad n° 11, de 1954; El Corazón Delator, adaptação de Breccia em formato gigante da obra de Edgar Alan Poe impressa em serigrafia e revistas número 1 da Turma da Mônica editadas na Europa. Há também Raimundo, o Cangaceiro, números 1 e 2, de José Lanzellotti, cedidas por sua filha Jussara; além dois exemplares de O Tico-Tico e O Globo Juvenil, de 1949.

Entre as obras expostas, o visitante irá encontras este desenho para a capa da revista Casper (Gasparzinho), que Gutemberg Monteiro fez nos Estados Unidos, onde trabalhou durante 40 anos. O MuBA fica na Rua Dr. Álvaro Alvim, 76, em Vila Mariana, perto do Metrô. Para saber como chegar, CLIQUE AQUI. Visite também o site Quadrinhos’51, e conheça a programação de debates que acontecem todos os sábados a partir das 14 horas.

Jaguar, um senhor desenhista


Em 1959, o mestre Jaguar passou a fazer parte da brilhante equipe, capitaneada por Nahum Sirotsky, que criou a SR. (Senhor), uma das melhores e mais importantes revistas já editadas no Brasil. Só para se ter uma idéia da dimensão dessa publicação, basta uma rápida olhada no expediente e nas assinaturas dos textos e ilustrações para encontrar nomes como os de Paulo Francis, Carlos Scliar, Newton Carlos, Glauco Rodrigues, Caio Mourão, Rubem Braga, Antonio Callado, Fernando Sabino, Clarice Lispector, Jorge Amado, Flávio Damm, Luiz Lobo, Marcel Gautherot e tantos outros.

A capa reproduzida no alto foi criada por Jaguar para a edição de dezembro de 1959. Era o décimo número da revista, que trazia reportagens como Julião da Galiléia (quem é o homem das “ligas camponesas”), escrita por Callado, e Vinte dias de Paris, de Fernando Sabino; além de um especial sobre O nu na arte, o conto A Galinha, de Clarice Lispector, e O Maravilhoso O, de James Thurber, adaptado por ninguém menos que Ziraldo.

Jaguar tinha 27 anos quando publicou estas ilustrações e charges. Os dois desenhos de cima são da edição de outubro (número 8). O belo desenho do cavalo foi publicado assim mesmo, sobre o texto do artigo de Teófilo de Vasconcelos: Um cavalo não é um cavalo, não é um cavalo. A charge de baixo foi publicada em dezembro. A revista SR. era, também, um deleite para os olhos!

Clique nas imagens para ampliá-las em boa resolução.

O Rocky Lane de Primaggio


O desenhista Primaggio Mantovi é muito conhecido por sua principal criação, o palhaço Sacarrolha. Mas o primeiro personagem que ele desenhou foi um cowboy de filme B americano do qual era um grande fã quando criança: Rocky Lane. Sobre essa experiência, ele me falou ao telefone: “Foi muito bom. As histórias em quadrinhos de Rocky Lane tinham parado nos Estados Unidos mas, como vendia bem, decidiram continuar a publicar no Brasil. De repente eu estava desenhando meu cowboy preferido e ainda era pago por isso! Cheguei a criar e desenhar uma história contando a origem dele, coisa inédita nos Estados Unidos!”.

Acima vemos um desenho colorido que Primaggio fez e nunca foi publicado. É uma pintura de seu acervo que o próprio desenhista nos enviou para que pudéssemos compartilhar com nossos leitores. Abaixo, vemos um desenho do cowboy Rocky Lane extraído da primeira página da história A Seita dos Vingadores, que Primaggio também nos enviou. Para ver essa página completa, exatamente como ela foi publicada, CLIQUE NESTE LINK.

Primaggio entrou na Rio Gráfica em 1964 e no ano seguinte passou a desenhar Rocky Lane todo o mês. Depois desenhou também o Recruta Zero (Beetle Bailey) e, mais tarde, na Editora Abril fez histórias dos personagens Disney e de outros personagens infantis, como Pantera Cor-de-Rosa e Moranguinho. (Clique nas imagens para ampliá-las)