Antonino, homem bom

Arte original da página 25 da revista Capitão Mistério #8, com todas as manchas, marcação de lápis feita sobre o papel couchê padrão fornecido pela Bloch. Drácula em A Viagem do Demônio, de 1983. Narra o improvável encontro entre Drácula e um lutador igual ao Bruce Lee.

Não sei exatamente o dia em que Antonino Homobono Balieiro apareceu em meu estúdio para apresentar o seu portfólio. Eu e minha mulher prestávamos atendimento para diversas empresas na área de design gráfico e conteúdo jornalístico. Sorrindo, com aquele seu jeitão despretensioso, uma cabeleira que chamava atenção, Antonino se mostrou um artista admirável, talentoso e humilde. Naquela típica tarde carioca, no início da década de 80, percebi que estava diante de uma grande personalidade, de um dos maiores desenhistas deste país e com quem tive o prazer de trabalhar.

Tive a honra de vê-lo em ação, em meio a pincéis e tintas. É… naquela época desenhistas usavam pincéis, tintas, bicos-de-pena, canetas nanquim, papel schoeller. Várias vezes o vi pintando, ao mesmo tempo, cinco, dez desenhos para entregar num prazo sempre muito curto (como já contei aqui). Homobono tinha um talento excepcional. Como me disse certa vez o desenhista e jornalista Ota (criador de diversos personagens, entre eles Dom Ináfio e ex-eterno editor da revista Mad), “ele era pau para toda obra”.

Antonino era especialista em resolver rapidamente problemas nas mais diversas áreas da ilustração: desde os quadrinhos às peças publicitárias. Ota sabia disso e como editor de quadrinhos da antiga Editora Vecchi (ele lançou diversas revistas totalmente desenhadas no Brasil) precisou da arte de Antonino, ou de Homobono, ou ainda de Balieiro (sim…Antonino assinava seus desenhos com um de seus três nomes), em várias publicações, tais como as excelentes revistas de terror Spektro e Sobrenatural, e as de faroeste Chet e Chacal.

Segundo o Ota, Antonino era uma espécie de curinga, graças à sua alta produtividade e rapidez em desenhar histórias em quadrinhos com qualidade. “Se precisava de alguma história de emergência era só dar pra ele que ele fazia rápido”, lembra. Muitas vezes Antonino tinha que cobrir os furos de outros desenhistas que não entregavam as páginas no prazo.

Um mestre na arte de desenhar, Homobono também desenhou histórias do Fantasma e do Sítio do Picapau Amarelo, da RGE (atual Editora Globo), e fez uma ótima série de Drácula na revista Capitão Mistério da Editora Bloch. Aliás, esse título foi um dos pouquíssimos bons lançamentos, nessa linha, da editora da rua do Russell. As revistas em quadrinhos da Bloch, em sua maioria, tiveram tratamento de quinta categoria.

Antonino tinha uma característica interessante: ao assinar seus desenhos ele escolhia um de seus três nomes. Isso fazia com que muitos leitores pensassem que eram três desenhistas diferentes. Mas Antonino, Homobono e Balieiro eram exatemente a mesma pessoa. Alguém que estava sempre pronto a ajudar os amigos e que não recusava trabalho. Aliás, sua profissão era o que o impulsionava e o inspirava.

Ele se tornou um grande irmão e confidente. Um amigo que deixa muitas saudades.

Antonino morreu de uma grave doença no coração. Poucas pessoas sabem disso. Ele não queria preocupar os amigos e não comentava com ninguém a respeito. Preferia aguentar sozinho. Ele era um verdadeiro herói brasileiro.


As imagens que ilustram este texto foram retiradas de histórias produzidas para a revista Capitão Mistério – Drácula, da Bloch Editores. No topo desta postagem e nesta imagem de cima, o incrível encontro de Drácula contra… Bruce Ling (qualquer semelhança com Bruce Lee é totalmente proposital!) na história A Viagem do Demônio, publicada no número 8 da revista.  A imagem superior, com Drácula, é da página de abertura da história A Semente do Mal, publicada no número 28. Logo abaixo, a moça na cama foi publicada na história Traficantes do Terror, do número 24, e mais abaixo, à direita, a página foi extraída da história A Vingança de Mary, publicada em Capitão Mistério #26.

Para variar um pouco, publico abaixo outra especialidade do mestre: desenhos de histórias de faroeste. Este foi para a capa da revista Chacal #20 – Série Tony Carson, publicada em janeiro de 1982.

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Leão Negro tira Homem-Aranha do pedaço

 

Li recentemente uma entrevista que o talentoso desenhista Ofeliano deu a José Carlos Neves, publicada no site que o entrevistador mantém, o Alan Moore – Senhor do Caos. Não sei quando aconteceu esse papo, mas Ofeliano nos faz viajar por uma boa parte da história das HQs nacionais, com suas boas lembranças. Para quem curte quadrinho nacional, é uma leitura muito agradável. Aliás, deixe eu abrir um parenteses aqui: a área de entrevistas (o site mudou de endereço e todas as entrevistas ainda não estão publicadas) desse site tem um conteúdo muito bom, com quadrinistas excelentes dando o seu recado.

Leão NegroUma das lembranças mais interessantes que Ofeliano conta na entrevista, foi a curiosa história do lançamento do Leão Negro, personagem selvagem e traiçoeiro criado por ele e Cynthia Carvalho, cuja estréia aconteceu de forma inusitada no Globinho, suplemento dominical de quadrinhos do jornal O Globo, em 1987. O anti-herói substituiu nada mais, nada menos, do que o amigo da vizinhança, o Homem-Aranha. Abaixo selecionei um trecho que da entrevista.
Assim falou
Ofeliano:

“Ennio Torresan me avisou do Concurso de Tiras de O Globo. Fui pro McDonald’s por duas tardes e escrevi, entre sucos e sanduíches, as vinte tiras de Sarnento, o Cruzado do Rei, sátira ao Plano Cruzado, de José Sarney.  Tirei o 5º Lugar. Eu e Cynthia estávamos numa pousada, cavalgando e curtindo quando pedi emprestado o jornal de um hóspede e lá estavam os premiados. Foi a glória para nossa vida em comum, recém-iniciada!

Só que eu não sabia como continuar a tirinha – não sou um cartunista nato – e daí surgiu a grande chance: colocar no lugar o Leão Negro! Preparamos dez tiras inéditas; foi aí que nasceu a concepção definitiva da tira. O editor de tiras de O Globo, Gilson Koatz, adorou e teve a coragem de, em 1987, retirar o Homem-Aranha e tascar o Othan. A grande ousadia era bancar uma tira brasileira de aventura seriada. Gilson é um entusiasta da HQ e pensava mesmo em montar a própria editora. Alguns leitores reclamaram, mas ele não se abalou. Logo, estes mesmos leitores escreveram dizendo estar gostando do Leão Negro. Choveram cartas de todo o Brasil, estavam gostando, foi uma adrenalina.O Globinho Supercolorido

É um embate magnífico esse dos autores com o público – o público é muito lúdico, é selvagem, não precisa provar nada pra ninguém. Vai te destroçar ou te adotar incondicionalmente. É uma força da natureza e, por isso, professa uma verdade difícil de se contestar. É um juiz implacável. E o Leão Negro estourou de sucesso porque nós, autores, também o realizamos de modo lúdico e implacável. Conectamos com o público, mas foi instintivo, e isso só aconteceu também por causa dos roteiros da Cynthia, que escreve para se divertir, principalmente. Eu me submeti aos seus instintos, afinal não nasci ontem.

As aventuras do Othan não querem revolucionar a linguagem nem se destacar, estão aí só pela curtição; é seu grande segredo. Outra coisa importante que eu e Cynthia aprendemos logo no início dessa produção foi deixar o roteiro com o roteirista e o desenho com o desenhista, sem interferências. Inclusive Cynthia entrega tudo rafeado, o que já situa tudo devidamente.”

Bom, não é?
Noutra parte da entrevista, José Carlos pergunta sobre o paradeiro de alguns desenhistas, entre eles o do meu grande amigo Antonino Homobono, ao que Ofeliano responde demonstrando respeito e admiração: “
Só posso contar do Antonino Homobono, inesquecível artista e personalidade marcante, falecido há poucos anos por grande desencanto existencial“, e continua a falar do grande artista, dando a entender que ele cometeu suicídio. Porém, quero aproveitar este espaço para esclarecer que o mestre Antonino não se suicidou. Ele realmente passava por um momento de grande turbulência em sua vida, mas o que aconteceu de fato é que ele morreu de uma grave doença que fez crescer o seu coração. Ele precisava de um transplante e, para não preocupar os amigos, não contou nada a ninguém. Sofreu sozinho, mas nunca transpareceu. Era um gigante em sua arte e em sua amizade. Doença estranha essa: para quê um coração maior, justo para o Antonino?! Ele já tinha um grande coração! Isso sempre me lembra desse trecho do poema de Mayakovsky:

“Desabotoado, o coração quase de fora, abria-me ao Sol e aos jatos d’água.
Entrai com vossas paixões! Galgai-me com vossos amores!
Doravante não sou mais dono de meu coração!
Nos demais – eu sei, qualquer um o sabe!
O coração tem domicílio no peito.
Comigo a anatomia ficou louca.
Sou todo coração – em todas as partes palpita.
Oh! Quantas são as primaveras em vinte anos acesas nesta fornalha!
Uma tal carga acumulada torna-se simplesmente insuportável.
Insuportável não para o versos de veras.”

Uma pessoa marcante como Antonino tinha que deixar lembraças emocionadas!
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PS: A imagem do Globinho que ilustra este texto não é da fase do Leão Negro, como se pode ver pela data (1980) mas serve para dar uma idéia de como era a publicação, praticamente com o mesmo visual, sete anos depois.