A paixão segundo Joe Kubert

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Joe Kubert era um gigante. Talvez não seja tão simples defini-lo em uma palavra. Mais complicado será falar sobre ele sem exagerar nos adjetivos. Kubert é um nome fundamental na História das histórias em quadrinhos. Ele se transformou em uma lenda há muito tempo, não só por ter criado um traço personalíssimo e dinâmico, perfeito para dar vida a personagens selvagens e aventureiros como Tarzan, Sargento Rock, Gavião Negro, Tor (abaixo), Ás Inimigo e tantos outros. Mas seu talento também norteou o trabalho de grandes artistas, que deram seus primeiros passos na bem sucedida escola criada por ele e sua esposa, Muriel, em 1976. Na verdade, Kubert sempre foi um apaixonado pelo seu trabalho, tanto como desenhista, quanto como editor, escritor e professor, inspirando inúmeros autores por todo mundo.Tor05fev77-kubert-ebalnt

Filho de pais judeus, Yosaif (ou Joseph) Kubert nasceu em 18 de setembro de 1926 numa pequena cidade chamada Yzeran, que ficava na Polônia e hoje faz parte da Ucrânia. Sua família emigra para os Estados Unidos quando tinha pouco mais de dois meses de vida e passa a viver no Brooklin.

Durante sua infância, ele descobre sua paixão pela arte de desenhar e, com o apoio dos pais, torna-se um talento precoce. Há controvérsias quanto à época em que começou a trabalhar como desenhista iniciante. Na introdução de sua graphic-novel Yossel, Kubert escreveu que ele recebeu cinco dólares por página quando tinha 12 anos. “Em 1938, isso era muito dinheiro”, afirmou.

A partir daí, não parou mais. Fã de Hal Foster, Alex Raymond e Milton Caniff, o jovem trabalhou para diversos estúdios e com os mais diferentes personagens e gêneros, desde ficção-científica até faroestes e histórias de guerra. Em meados da década de 1940 ele passa a desenhar mais regularmente para a All-American Comics, editora que se tornaria, no futuro, a DC Comics; em 1945 Kubert começa a ilustrar um dos personagens que marcariam a sua carreira: Gavião-Negro (Hawkman).

SargentoRock02atirantNo início da década de 1950, Kubert inicia sua carreira de executivo ao aceitar o cargo de editor da St. John Publications. Ao lado do colega de escola Norman Maurer e do irmão deste, Leonard, ele desenvolve para a editora, em 1953, a primeira revista de quadrinhos em 3D do mundo, apresentando as aventuras de SuperMouse (Mighty Mouse), adaptação do famoso desenho animado infantil da época. O sucesso foi instantâneo. No mesmo ano ele lança as aventuras de Tor, personagem que vive numa época pré-histórica, e também ganha uma versão em 3D, aproveitando o sucesso dessa tecnologia.

Ao contrário do que era comum naquela época, os direitos autorais de Tor continuam nas mãos de Kubert e as aventuras desse herói são publicadas com relativo sucesso em diversas editoras ao longo da carreira do desenhista.

Em 1955 ele volta a desenhar para a DC Comics, inicialmente como free-lancer, mas logo estaria trabalhando exclusivamente para a editora. Neste ano ele intensifica uma frutífera parceria com o também lendário escritor e editor Robert Kanigher, que já conhecia desde os tempos da All-American Comics e com o qual desenvolveu diversas histórias de guerra e personagens de sucesso, como o Príncipe Viking, lançado em agosto de 1955. Mas foi em janeiro de 1959 que a dupla apresentou uma de suas mais importantes criações: o Sargento Rock (ao lado), publicado pela primeira vez na revista G.I. Combat. Chamado inicialmente de “The Rock”, o soldado que lutava contra os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial ganhou mais definição nas histórias seguintes e caiu no gosto dos leitores, transformando-se numa das séries mais duradouras dos comics americanos.
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Apesar de criar histórias de guerra, a dupla Kanigher-Kubert jamais glorificou os conflitos e sempre mostrou o lado humano de cada personagem retratado. Seguindo esta linha, a dupla novamente inova em 1965 ao apresentar para o público Ás Inimigo (Enemy Ace), um piloto da aviação que lutou durante a Primeira Guerra Mundial. Ele não era inglês ou americano. Era alemão. E isso fez toda a diferença. Kubert sempre gostou de ilustrar os roteiros de Kanigher, carregados de detalhes históricos e que exigiam muita pesquisa de época. Certa vez ele escreveu que seus roteiros tinham a capacidade de provocar sua imaginação: “Suas palavras tinham o poder de criar excitantes imagens dramáticas e dinâmicas em minha mente!”. Não foi por acaso que Ás Inimigo é considerado uma das melhores histórias de guerra já produzidas para os quadrinhos.
cabelosdefogo-thawk16-fev73ntAcima, Cabelos de Fogo, de Joe Kubert.
Publicado em fevereiro de 1973 na revista
Tomahawk n°16, da Ebal. Nesse mesmo
ano foi lançado também pela Ebal,
o álbum A Origem de Tarzan, que
mostra a morte de Kala (abaixo).
A origem de Tarzan - A morte de Kala
A partir de 1967 Kubert passou a ser Diretor de publicações da DC Comics. Cinco anos depois aceitou o desafio de readaptar os livros de Tarzan, de Edgar Rice Burroughs, para os quadrinhos (leia O traço selvagem de Joe Kubert). E assim ele criou mais uma obra-prima da arte seqüencial e o personagem de Burroughs retoma o status adquirido em seus primórdios, quando era desenhado por Hal Foster e Burne Hogarth.
A fúria de Tarzan
tarzan-kubert-devntDepois de deixar o cargo de Diretor na DC em 1976, a paixão de Kubert por sua arte e seu interesse em formar uma nova geração de artistas fazem com que ele e sua esposa fundem a The Joe Kubert School of Cartoon and Graphic Art, hoje conhecida internacionalmente como The Kubert School. Vários grandes artistas de sua geração foram professores de sua escola. E ela formou inúmeros novos talentos, como dois dos cinco filhos de Kubert, Adam e Andy, considerados nomes de grande expressão na indústria dos comics americanos. Os anos seguintes seriam de dedicação quase total aos seus alunos, mas sem deixar de desenhar quadrinhos.

Na década de 1990 Kubert voltaria a produzir histórias mais autorais. Em 1991 lançou Abraham Stone: Country Mouse City Rat para a Malibu Comics. Em 1994, ele recebeu a visita do célebre editor italiano Sergio Bonelli em sua residência. Este o havia convidado a ilustrar uma história especial do popular cowboy italiano Tex, mas Kubert teve que adiar a realização desse projeto para se dedicar exclusivamente à produção daquela que se tornaria sua nova obra-prima, a premiada graphic novel Fax from Sarajevo. Inédito no Brasil, este livro foi baseado numa série de faxes que seu representante na Europa, Ervin Rustemagiæ, enviou para ele relatando com detalhes a tragédia da guerra na Sérvia durante o massacre de civis em Sarajevo. Esta obra foi, finalmente, publicada em 1996. E a história de Tex (abaixo) foi lançada na Itália cinco anos depois, em 2001, com enorme repercussão.

Dois anos depois, Kubert voltaria às suas origens imaginando o que aconteceria se sua família não tivesse emigrado para os Estados Unidos e continuasse vivendo na Polônia. Esse foi o ponto de partida para a novela gráfica Yossel, lançada em 2003.

Neste ano ele também retornaria ao personagem que consagrou, com a minissérie Sgt. Rock: Between Hell and a Hard Place, escrita por Brian Azzarello, e três anos depois, com outra aventura estrelada pelo soldado: The Prophecy (ao lado). Em 2008, um novo retorno. Agora ao seu primeiro personagem na minissérie Tor: A Prehistoric Odyssey, publicada pela DC Comics. São desse período também as histórias autorais Jew Gangster e Dong Xoai, sobre a guerra do Vietnã.

Seu último trabalho publicado foi Before Watchmen: Nite Owl para a DC, onde ele arte-finalizou o desenho a lápis executado por seu filho Andy Kubert. Bem do jeito que ele fazia no início de carreira. Em outubro, estava previsto pela DC o lançamento de sua última incursão como quadrinista: a minissérie Joe Kubert Presents, com novas histórias gráficas, incluindo o retorno do desenhista ao seu Gavião Negro (Hawkman, abaixo).

Joe Kubert faleceu no dia 12 de agosto em decorrência de um tipo de câncer, um mieloma múltiplo, poucas semanas antes de completar 86 anos.

(Texto publicado originalmente no Jornal da ABI 381)

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Tarzan de Joe Kubert


Em 1973 a Ebal publicou o álbum A Origem de Tarzan que compilou as primeiras quatro histórias criadas e desenhadas por Joe Kubert. O trabalho que este genial desenhista realizou com o personagem, foi um verdadeiro marco para as histórias do Homem-Macaco. Agora, em 2010, a Devir traz de volta essas e outras histórias num novo álbum: Tarzan – A Origem do Homem-Macaco e Outras Histórias. Leia mais AQUI.
A imagem acima foi extraída do álbum da Ebal. Ela pode ser ampliada em alta resolução.

Tarzan fará parkour?

Tarzan by Jusko - Clique aqui para ampliarQuem está pronto para retornar à tela grande é Tarzan, o rei das selvas. O diretor e escritor Stephen Sommers, que realizou A Múmia, O Retorno da MúmiaVan Helsing (hummm, esse cara não tem um currículo confiável…) e o roteirista Stuart Beattie, que escreveu a história de Piratas do Caribe – A Maldição do Pérola Negra e Colateral e roteirizou 30 Dias de Noite e Austrália, estão preparando o roteiro da nova adaptação para o cinema do livro Tarzan dos Macacos, de Edgar Rice Burroughs. A história contará (novamente) a origem do menino descendente de uma família nobre da inglaterra que foi criado por macacos. A novidade é que esta versão trará um Tarzan que “voará” pela selva, pulando velozmente entre as árvores com fazem os praticantes de parkour ou “a arte do deslocamento”. Essa idéia dos novos realizadores faz sentido. Desde criança, quando assistia aos clássicos filmes do homem-macaco, sempre achei incrível ele encontrar tantas árvores com cipó por onde ele passava. Agora, Tarzan será um mestre da arte do deslocamento bem antes do parkour* ter sido criado por David Belle e seus amigos, na França.

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Só não consigo entender uma coisa: porque os produtores deste novo filme de Tarzan resolveram adaptar o primeiro livro do personagem? Edgar Rice Burroughs escreveu mais de 20 livros com as aventuras do homem-macaco e o primeiro – que conta a origem do personagem – já foi adaptado para o cinema inúmeras vezes. Porque, então, não pensar em escolher outra história que ainda não tenha sido levada para as telas do cinema? Porque não filmar, por exemplo, Tarzan e as Jóias de Opar (Tarzan and the Jewels of Opar) ou Tarzan e a Cidade de Ouro (Tarzan and the City of Gold)? Isso é um grande mistério!

As duas images que ilustram este texto são de Joe Jusko, desenhista nova-iorquino muito conhecido pelas suas pinturas realísticas de fantasia e personagens dos quadrinhos. Entre seus trabalhos mais conhecidos estão as capas de A Espada Selvagem de Conan (The Savage Sword of Conan) e Vampirella, além das ilustrações para as criações de Burroughs: Tarzan, John Carter em Marte e Pellucidar. Em 1992 Jusko ficou famoso também por fazer os fantásticos desenhos dos personagens da Marvel para a série de cards Marvel Masterpieces.

Clique nas imagens para ampliá-las em ótima resolução.

*Para saber mais sobre Parkour, visite o site da Associação Brasileira de Parkour.