Cortez no cinema

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Capa do livro Film Posters Horror (acima), com uma seleção gráfica dos melhores cartazes de cinema do mundo. Ao lado, cartaz do clássico de horror, Maldição de Sangue de Pantera (The Curse of the Cat People), desenhado por Jayme Cortez.

Cartaz de cinema do relançamento de Maldição do Sangue de Pantera, pela Polifilmes. Criação Álvaro de Moya e desenho de Jayme Cortez.

Jayme Cortez não era apenas um genial desenhista de histórias em quadrinhos. Ele usou seu talento para militar em diversas áreas das artes gráficas, como a publicidade, capas e ilustrações de livros, animação e tinha uma paixão especial pelo cinema. Além de atuar (isso mesmo! nosso desenhista participou como ator em filmes do Zé do Caixão!), ele foi um grande designer de cartazes da sétima arte. Entre tantos trabalhos realizados, um de seus melhores é destaque no livro Film Posters Horror, da Evergreen/Taschen Gmbh, lançado em 2006 (ao lado), que faz um levantamento dos melhores cartazes de cinema do mundo. Há obras de artistas de várias nacionalidades, entre ingleses, italianos, japoneses, alemães, americanos etc. Do Brasil, o único trabalho citado é este desenhado pelo mestre Cortez. Trata-se do clássico do produtor Val Lewton, The Curse of the Cat People, realizado pela RKO, com Simone Simon e Kent Smith.

No Brasil, a produção ganhou o nome de Maldição de Sangue de Pantera. Lançado em 1944 nos Estados Unidos, ele foi relançado pela Cinematográfica Polifilmes nos anos 60 e o poster (que vemos no alto) foi criado no Brasil por nada mais, na menos que a dupla de amigos Álvaro de Moya e Jayme Cortez. Aconteceu o seguinte: Moya era associado da distribuidora e recomendou o capista da revista Terror Negro, da Editora La Selva, para fazer o novo cartaz. E assim foi feito. Moya criou o layout e o texto e Jayme Cortez realizou a belíssima arte final, que foi destaque de página inteira no livro.

A dupla também produziu outro cartaz de um clássico relançado pela Polifilmes: trata-se de Ilha dos Mortos (Isle of the Dead), de Mark Robson, com o pst-ilhadosmortos-cortez-nteterno Frankenstein, Boris Karloff, além de Ellen Drew e Alan Napier (o ator que fez o mordomo Alfred na espalhafatosa série de TV Batman, dos anos 60).

Como curiosidade, Maldição de Sangue de Pantera foi iniciado pelo excelente diretor Gunther V. Fritsch, que foi considerado pela RKO um realizador muito lento para finalizar uma produção classe B e ele foi substituido pelo montador de Cidadão Kane, Robert Wise, que mais tarde dirigiria outros grandes filmes, como West Side Story, Noviça Rebelde e… Jornada na Estrelas – O Filme.

Mais uma coisa: o livro Film Posters Horror traz, no final, um índice dos filmes e outro com todos os artistas, designers e fotógrafos que criaram os cartazes dos filmes de horror citados. Mas, infelizmente, não adianta procurar o nome de Jayme Cortez. É que os editores da publicação escreveram o nome do desenhista errado! Lá, eles grafaram como arte de Payne Gomez. Uma pena. Desculpe o trocadilho, mas esse foi um erro nada cortês…
Por Francisco Ucha (com Álvaro de Moya)

Mônica cinquentona


Há cinquenta e três anos, Mônica deu a primeira coelhada em Cebolinha e conquistou o Brasil.

(Parecido com o que aconteceu em Thimble Theatre, que era uma tira de Segar desde 1919, mas no dia 17 de janeiro de 1929 surgiu um marinheiro figurante que tomou conta do recado. Transformou-se num dos maiores personagens dos Comics: Popeye!)

Na tirinha do Bidu publicada na Folha de S.Paulo, no dia histórico de 3 de março de 1963, Cebolinha trombou com  a personagem Mônica e mudou a história da história em quadrinhos no Brasil (clique na imagem grande do alto para ver essa tira histórica desenhada pelo Mauricio de Sousa).

Até então, embora sempre tivessem apoiado personagens brasileiros sem sucesso nas revistas e jornais, os editores alegavam que os leitores só aceitavam heróis estrangeiros. Mas a Folha deu apoio a um repórter policial do diário que sonhava fazer quadrinhos. E assim, apareceu em 1959, uma tirinha com o cachorrinho Bidu e seu dono, Franjinha.

Mauricio de Sousa sabia que um só verão não faz andorinha (ou uma só andorinha não faz verão?) e tratou de negociar com o jornal para ceder os caríssimos clichês de suas tiras, e viajou para as cercanias da região fornecendo tiras já em português e clichês em metal, aos jornais locais. Era um material que não necessitava de tradução, tampouco de refazer as letrinhas: já vinha pronto do forno.

monicafotontDesde sempre as suas criações eram baseadas na sua infância. O cachorrinho, o amigo que falava errado, o que não tomava banho e outros. Quando se tornou pai, precisava de mais dinheiro e criou Mônica à imagem e semelhança de sua filha. Inclusive com o coelhinho azul inseparável.

Então, tudo mudou no mundo dos quadrinhos brasileiros. Victor Civita, em 1970, acreditou e investiu num título, Mônica e sua Turma. A revista da Abril foi quase toda escrita e desenhada por Maurício, num esforço incomum. Existem reedições da sua atual Editora Panini que atestam a qualidade inicial do feito. Belo texto e traços originais e mais pessoais que os americanos.

Tanto que logo ganhou o prêmio máximo do Salão de Lucca então no auge do prestígio, o Yellow Kid e o Gran Guinigi, escolhido por um júri internacional.

A então poderosa empresa Cica divulgava o trabalho de Mauricio em desenhos animados na mídia, ao escolher o personagem Jotalhão para interpretar o elefante-símbolo do famoso molho de tomate. Isso colocou a Mônica e o Mauricio como um grande sucesso popular da televisão. Ele já tinha uma pequena infraestrutura, que criou baseada na distribuição dos comics norte-americanos do King, United, NEA e na produção dos estúdios do líder de todos: Walt Disney.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Brasil até teve alguns personagens nacionais de sucesso. Mas, hoje não há uma criança – ou adulto – que não conheça a dentucinha querida de todos. E ela cresceu e passou a viver novas aventuras na revista Turma da Mônica Jovem e até casou (no futuro?), com Cebolinha, seguindo o caminho do clássico Príncipe Valente que cresceu e teve filhos, na saga de Hal Foster.

Certa feita, Jayme Cortez, Mauricio e eu, estávamos no estúdio do maior criador dos comics no mundo, em Nova York. O nosso ídolo, o “Orson Welles dos quadrinhos”, Will Eisner. E o grande artista e empresário de sucesso declarou que Mauricio tinha sido mais esperto que ele: criara um “character” possível de virar boneca, animação, merchandising, etc. E seu “pobre” The Spirit era complicado demais para explorar o licenciamento.

Wolinski, a liberdade do humor


Não é de hoje que a censura persegue revistas que criticam o poder.  Na mesma França do ataque terrorista à Charlie Hebdo, há pouco mais de um ano, a revista La Caricature, do desenhista Charles Phillipon, foi apreendida em 1834 por ter publicado, também na capa, o rei com cabeça de pêra. Desde o Egito antigo, se faziam críticas de costume em papiros. Em Roma um desenhista fez uma caricatura dum cantor de ópera e a charge política teve seu apogeu na França. Depois, vieram os quadrinhos.

Sem fazer diferença nessa história, os assassinos de Paris, que invadiram o jornal satírico Charlie Hebdo em 7 de janeiro de 2015, ofendidos por uma caricatura de Maomé (a revista sempre criticou os ‘papas’), chamaram pelos nomes os ilustradores da revista, e os executaram. Eram Georges Wolinski, Cabu, Tignous, Honoré, Charb, que era também o editor.

Wolisnky,  o mais conhecido internacionalmente, esteve na Amazônia para ser jurado do festival local. Eu o conheci nos tempos dos Salões Internacionais de Quadrinhos de Lucca, nos anos 70, na Itália, e em Paris. No Brasil, seus quadrinhos provocantes foram publicados na revista Status e Penthouse.

Nasceu na Tunísia em 1934, de pai polonês e mãe italiana que imigraram para a França em 1952. Tinha jeito para desenho mas estudou só para não ser deportado. Em 1960 começou a carreira na revista Hara Kiri onde criou a série Eles Só Pensam Naquilo e se solidificou como erótomano. Criou também as séries Hit Parades e Não Quero Morrer Um Idiota, incursionando pelos quadrinhos. Colaborou com o jornal satírico L’Enragé e participou das manifestações de maio de 1968 na capital francesa. Aqui arrasava com o “establishment”.

Em 1970, foi um dos fundadores e primeiro editor de Charlie. Em 1977, virou chargista político do jornal comunista L’Humanité. Simultaneamente, colaborou no Libération e Paris Match. Também escreveu esquetes para TV, produziu teatro e, esporadicamente, bandes dessinées para l´Echo des Savanes e no seu derradeiro Charlie Hebdo.

Na história da humanidade, ativistas sempre foram alvo da ignorância e do atraso, sejam jornalistas, cartunistas, quadrinistas, ilustradores, artistas e sonhadores por um mundo melhor e mais engraçado.

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CLIQUE NAS IMAGENS ABAIXO PARA VÊ-LAS EM TAMANHO MAIOR
 

 

A Mafalda de Henfil


Mafalda, a garotinha que contestava, criada por Quino em 1964 na Argentina, sempre foi uma personagem que me encantou. Principalmente nos duros anos da ditadura militar quando ela podia falar muitas verdades que nós não tínhamos liberdade para dizer. Ela lavou minha alma em muitas ocasiões. Naquela época ler quadrinhos estrangeiros não era tão fácil. As publicações eram escassas e personagens que criticavam o sistema, como Mafalda, ficavam restritas a publicações independentes. Mas em 1982, já com a abertura “lenta e gradual”, a Global Editora passa a lançar nas bancas uma série de livros com as tiras de Mafalda. A tradução do material ficou a cargo de Mouzar Benedito e a edição final do texto ficou por conta de ninguém menos que… Henfil! O letrista não caprichava muito nas letras mas repare nas tiras que reproduzo abaixo que Henfil faz a opção de manter a pontuação da língua espanhola, com exclamações e interrogações também no início das frases, além de deixar algumas expressões em espanhol para não nos deixar esquecer as origens da personagem. Um trabalho muito atencioso.

Coincidentemente, algo mais aproximava Henfil e a Mafalda de Quino, além desse trabalho de edição de texto: foi também em 1964 que os Fradinhos foram publicados pela primeira vez, ainda em forma embrionária, é verdade. Mas eram eles. A mais popular criação do irmão de Betinho ganhou o mundo a partir da revista mineira Alterosa.

Abaixo, sete tiras da Mafalda publicadas nos livros da Global. Curta a personagem criada por Quino com um pouquinho de Henfil!
Mafalda e seu radinho: ela procurava ficar conectada ao mundo ;-)
Mafalda continua muito atual!

Quer saber o que há editado sobre a Mafalda no Brasil? Comece fazendo uma pesquisa em sites de comparações de preços, como o Buscapé (o meu favorito). Ou então visite o site da Martins Fontes ou da Comix e faça a pesquisa por lá mesmo.

Piteco, o protetor dos animais

Em 1965 Mauricio de Sousa lançou uma coleção de três livros infantis pela Editora FTD (como descrito aqui). Um deles foi chamado simplesmente com o nome do homem pré-histórico criado pelo Pai da Mônica: Piteco. O livro trazia uma história desse personagem e outra com o Penadinho e sua turma. A aventura do Piteco é bem interessante porque mostra a preocupação do Mauricio em passar para as crianças uma mensagem a favor de uma alimentação mais vegetariana.

Na história, os moradores da aldeia do Piteco sofrem com a escassez de carne, e ele promete caçar dinossauros para todos. Em sua busca, Piteco acaba salvando um dinossauro e os dois se tornam amigos. Sem coragem para matar o bicho, Piteco consegue incentivar, em sua aldeia, o consumo de frutos no lugar de carne. Já nos anos 60, Mauricio levantava questões que hoje em dia estão em pauta.

A aventura que encerra o livro foi chamada de Penadinho Contra o Caçador de Cabeças. Ela começa com uma apresentação da turma do além, que “mora num cemiteriozinho lá nos arredores da cidade”. Depois das apresentações, Penadinho descobre que Cranícola, que era um “crâneo” (um gênio, segundo a gíria da época), está apavorado porque chegou ao cemitério o fantasma de um caçador de cabeças. E, por motivos óbvios, Cranícola estava ‘morrendo’ de medo! Mas, na realidade, tudo não passou de um grande mal-entendido. Ops, isso foi um spoiler! :-)


De acordo com o expediente publicado na segunda página, o livro foi realizado nos estúdios de Mauricio de Sousa Produções, e informa que o copyright é de Mauricio Araujo de Sousa. O crédito para os artistas era o seguinte: Criações de Mauricio. Arte Final de Paulo Wamazaki. Cores de Joel Link e Alberto (Dudu) Djinishian. Os colaboradores foram Márcio Roberto, Sergio Cantara e José Aparecido.

Era um belo livro. Raríssimo, hoje em dia.

Acima, páginas da história do Piteco. Abaixo, frontispício do livro (clique nas imagens para ampliá-las)

O Almanaque dos Cômicos Famosos da La Selva


Em julho de 1960, a Editora La Selva reuniu num almanaque alguns dos mais famosos comediantes do cinema em preto-e-branco: O Gordo e o Magro, Os Três Patetas, e Abbott e Costelo. Esses personagens já eram publicados em revistas avulsas da editora e agora passeavam pelas 104 páginas do Almanaque dos Cômicos Famosos que, para efeitos de expediente, foi uma edição especial da revista Cômico Colegial.

A bela capa trazia expressões populares da época, como “Que bola” ou “40 mangos” (informando o valor da revista numa gíria). Na última capa, tentativas de fazer humor em quadro charges não tão felizes. Pouco importa. O mais interessante desta revistona é a qualidade dos desenhos das 12 histórias que compõe a publicação. Principalmente as dos Três Patetas, que foram ilustradas brilhantemente por Norman Maurer, como se pode apreciar nos exemplos publicados neste texto.

Um detalhe bastante curioso, é que Maurer era casado com Joan Howard, a filha de Moe, o rabugento chefão dos patetas. Por conta disso, a vida profissional desse talentoso desenhista esteve intimamente ligada ao do grupo de comediantes, e seu estúdio foi o responsável pela produção das histórias em quadrinhos do trio.

Maurer também produziu, escreveu e dirigiu diversos filmes dos Três Patetas depois que o contrato deles com a Columbia terminou, em 1957. E nos anos de 1965 e 66, foi o produtor executivo de uma série de desenhos animados com a trupe.

Outro trabalho interessante é o de Reuben Timmins para as quatro histórias de O Gordo e o Magro publicadas na revista. Se você acha que o desenho de Reuben lhe é famliar, você tem toda razão! Ele foi um dos animadores do famoso estúdio de animação dos irmãos Max e Dave Fleischer, que produziram, entre outras pérolas, a sensualíssima Betty Boop. Mas Reuben trabalhou como animador também nos Estúdios Disney e realizou ainda a série de animação de Jornada nas Estrelas (Star Trek).

Embora as histórias de Abbott e Costelo não estejam creditadas, a que abre o almanaque – O Caso do Ídolo Negligente – foi desenhada pelo casal Eric Peters e Lilly Renée. Talentosa, ela era a responsável pelos desenhos das mulheres sensuais que cruzavam o caminho da dupla atrapalhada, enquanto o marido desenhava os outros personagens. Veja do lado esquerdo a delicadeza do trabalho de Lilly Renée na finalização da personagem feminina (e fatal) dessa aventura.

Na divisão das histórias deste Almanaque dos Cômicos Famosos, a dupla Abbott e Costelo foi contemplada com cinco aventuras, enquanto que O Gordo e o Magro ficou com quatro, e Os Três Patetas com apenas três. Mas o número de páginas destinado a cada um deles foi muito equilibrado. Isso aconteceu porque as histórias dos Três Patetas são mais longas e elaboradas, e somaram 36 páginas no total. Este foi o mesmo número de páginas destinado à dupla Laurel & Hardy; enquanto que Abbott e Costelo, com maior número de histórias, ficou com apenas 31 páginas.

Este almanaque é um raríssimo e valioso item de colecionador que vale muito a pena resgatar.

Abaixo, mais páginas desenhadas com extremo talento por Norman Maurer, além da terceira página do almanaque (com o índice das histórias e o expediente) e da última capa.

Antonino, homem bom

Arte original da página 25 da revista Capitão Mistério #8, com todas as manchas, marcação de lápis feita sobre o papel couchê padrão fornecido pela Bloch. Drácula em A Viagem do Demônio, de 1983. Narra o improvável encontro entre Drácula e um lutador igual ao Bruce Lee.

Não sei exatamente o dia em que Antonino Homobono Balieiro apareceu em meu estúdio para apresentar o seu portfólio. Eu e minha mulher prestávamos atendimento para diversas empresas na área de design gráfico e conteúdo jornalístico. Sorrindo, com aquele seu jeitão despretensioso, uma cabeleira que chamava atenção, Antonino se mostrou um artista admirável, talentoso e humilde. Naquela típica tarde carioca, no início da década de 80, percebi que estava diante de uma grande personalidade, de um dos maiores desenhistas deste país e com quem tive o prazer de trabalhar.

Tive a honra de vê-lo em ação, em meio a pincéis e tintas. É… naquela época desenhistas usavam pincéis, tintas, bicos-de-pena, canetas nanquim, papel schoeller. Várias vezes o vi pintando, ao mesmo tempo, cinco, dez desenhos para entregar num prazo sempre muito curto (como já contei aqui). Homobono tinha um talento excepcional. Como me disse certa vez o desenhista e jornalista Ota (criador de diversos personagens, entre eles Dom Ináfio e ex-eterno editor da revista Mad), “ele era pau para toda obra”.

Antonino era especialista em resolver rapidamente problemas nas mais diversas áreas da ilustração: desde os quadrinhos às peças publicitárias. Ota sabia disso e como editor de quadrinhos da antiga Editora Vecchi (ele lançou diversas revistas totalmente desenhadas no Brasil) precisou da arte de Antonino, ou de Homobono, ou ainda de Balieiro (sim…Antonino assinava seus desenhos com um de seus três nomes), em várias publicações, tais como as excelentes revistas de terror Spektro e Sobrenatural, e as de faroeste Chet e Chacal.

Segundo o Ota, Antonino era uma espécie de curinga, graças à sua alta produtividade e rapidez em desenhar histórias em quadrinhos com qualidade. “Se precisava de alguma história de emergência era só dar pra ele que ele fazia rápido”, lembra. Muitas vezes Antonino tinha que cobrir os furos de outros desenhistas que não entregavam as páginas no prazo.

Um mestre na arte de desenhar, Homobono também desenhou histórias do Fantasma e do Sítio do Picapau Amarelo, da RGE (atual Editora Globo), e fez uma ótima série de Drácula na revista Capitão Mistério da Editora Bloch. Aliás, esse título foi um dos pouquíssimos bons lançamentos, nessa linha, da editora da rua do Russell. As revistas em quadrinhos da Bloch, em sua maioria, tiveram tratamento de quinta categoria.

Antonino tinha uma característica interessante: ao assinar seus desenhos ele escolhia um de seus três nomes. Isso fazia com que muitos leitores pensassem que eram três desenhistas diferentes. Mas Antonino, Homobono e Balieiro eram exatemente a mesma pessoa. Alguém que estava sempre pronto a ajudar os amigos e que não recusava trabalho. Aliás, sua profissão era o que o impulsionava e o inspirava.

Ele se tornou um grande irmão e confidente. Um amigo que deixa muitas saudades.

Antonino morreu de uma grave doença no coração. Poucas pessoas sabem disso. Ele não queria preocupar os amigos e não comentava com ninguém a respeito. Preferia aguentar sozinho. Ele era um verdadeiro herói brasileiro.


As imagens que ilustram este texto foram retiradas de histórias produzidas para a revista Capitão Mistério – Drácula, da Bloch Editores. No topo desta postagem e nesta imagem de cima, o incrível encontro de Drácula contra… Bruce Ling (qualquer semelhança com Bruce Lee é totalmente proposital!) na história A Viagem do Demônio, publicada no número 8 da revista.  A imagem superior, com Drácula, é da página de abertura da história A Semente do Mal, publicada no número 28. Logo abaixo, a moça na cama foi publicada na história Traficantes do Terror, do número 24, e mais abaixo, à direita, a página foi extraída da história A Vingança de Mary, publicada em Capitão Mistério #26.

Para variar um pouco, publico abaixo outra especialidade do mestre: desenhos de histórias de faroeste. Este foi para a capa da revista Chacal #20 – Série Tony Carson, publicada em janeiro de 1982.

Ken Parker, o homem que veio das montanhas

Quando Sydney Pollack resolveu filmar o clássico faroeste Jeremiah Johnson (Mais Forte que a Vingança, no Brasil), com Robert Redford (veja o trailer no YouTube), a partir de um emocionante roteiro baseado em dois livros – Mountain Man, romance de Vardis Fisher, e Crow Killer, uma história real escrita por Raymond W. Thorp e Robert Bun-ker –, ele jamais poderia imaginar que sua realização inspirasse Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo, dois dos maiores artistas italianos, a criar uma história em quadrinhos que se tornaria lendária. Mas foi a partir do conceito deste filme que surgiu Ken Parker, um dos mais cultuados personagens das histórias em quadrinhos italianas. “Rifle Comprido”, como é chamado pelos índios, é o próprio Redford desenhado. Em sua primeira aventura, ele ainda é um caçador que vive nas montanhas e vende peles de animais para sobreviver. E a semelhança com a realização de Pollack termina aí.

Para desenvolver as aventuras de Ken Parker, o roteirista Giancarlo Berardi e o desenhista Ivo Milazzo não trilharam o lugar-comum. Criativos e conscientes de que suas histórias ultrapassam o simples entretenimento, eles jamais iriam buscar o lugar comum em roteiros de faroeste. Na época, início da década de 1970, os dois trabalhavam nas histórias de Tiki, Il Ragazzo Guerrero, com as aventuras de um jovem índio da tribo Carajás, na Amazônia, que denunciavam a violência da região, o abuso das autoridades e o massacre de aldeias indígenas. Como se vê, argumentos pouco usuais, principalmente se considerarmos o período em que elas foram criadas.

Depois que a série de seis episódios de Tiki chegou ao fim, Berardi e Milazzo enfim, puderam se dedicar ao novo personagem. E em 1977 Ken Parker foi lançado na Itália, inicialmente para ter poucas histórias. Mas a nova revista se torna um sucesso, que se mantém por vários anos. Foram 59 edições regulares, além de uma série de 18 edições extras, e alguns álbuns especiais. A novidade é que, além de criarem aventuras absolutamente cinematográficas, Berardi e Milazzo incluem em suas histórias diversas referências culturais, sejam elas vindas do cinema, das artes plásticas, da literatura, além de referências históricas. Assim, os leitores da história em quadrinhos, viam personalidades como Marilyn Monroe (acima), Edgar Alan Poe, John Ford, Davy Crockett, Sherlock Holmes, King Kong (sim, o macaco também) e tantos outros, cruzarem o caminho de Rifle Comprido, um herói improvável, que muitas vezes se vê no olho do furacão, mas que sempre escolhe o lado do mais fraco e justo.

Ken Parker e a greve proletária: Milazzo e Berardi fazem uma homenagem ao famoso quadro O Quarto Estado, de Giuseppe Pellizza, que se tornou símbolo da luta dos trabalhadores, na história Um Hálito de Gelo. Acima, a versão colorida. Abaixo, o quadrinho que aparece na aventura.

No Brasil, a série original de Ken Parker foi lançada pela Editora Vecchi em novembro de 1978 e só terminou de ser publicada em no número 56, de agosto de 1983, ano em que a editora fechou as portas, deixando os leitores brasileiros sem as últimas seis aventuras (na Itália, a série durou 59 edições). Assim, o personagem ficou afastado das bancas brasileiras – exceto por algumas poucas edições esporádicas – até o ano 2000, quando a Mythos Editora passou a publicar uma nova série de Ken Parker, com 18 edições (batizada, na Itália, de Ken Parker Magazine). Além desta iniciativa, a Tendência Editorial e, em seguida, o Clube dos Quadrinhos-Cluq iniciaram o relançamento de toda a série clássica em formato maior e tiragem limitada, incluindo as quatro últimas aventuras que não haviam sido publicadas no Brasil (a editora Best News tentou continuar a série no início dos anos 1990 a partir do ponto que a Vecchi deixou, mas não passou de duas edições). Na verdade, esse relançamento foi uma iniciativa – e um verdadeiro tour de force – do editor Wagner Augusto, do Cluq, que passou a ter os direitos sobre os produtos de Berardi/Milazzo no Brasil.

Agora, novamente o Cluq é responsável pelo lançamento de quatro livros com aventuras inéditas de Ken Parker, publicadas originalmente na segunda metade da década de 1990 na Itália. Cada volume é encadernado com capa dura, tem mais de 180 páginas e é impresso em papel couchê. Os dois primeiros, lançados no final de 2013, são Os Condenados, no qual Ken Parker é prisioneiro numa colônia penal, e Nos Tempos do Pony Express, que relata as aventuras do herói quando adolescente. Neste início de ano chegam As Aventuras de Teddy Parker, que narra o encontro de pai e filho, e Cara de Cobre, emocionante história baseada num caso verídico sobre um índio que teve sua aldeia dizimada.

Wagner Augusto está à frente da bem cuidada edição e recebeu elogios da crítica especializada até na Itália, que considerou os quatro livros “belíssimos e elegantes”. Como é uma tiragem bem limitada, os quatro volumes não são encontrados na maioria das livrarias mais conhecidas. Mas, quem se interessar, pode encomendá-los no site comix.com.br ou pedir diretamente ao Cluq: Caixa Postal 61105, São Paulo, SP (cluq@terra.com.br).


Os novos livros de Ken Parker têm tratamento refinado: acima, uma página de As Aventuras de Teddy Parker; abaixo, uma página de Cara de Cobre.