Cortez no cinema

filmpostershorror-capant
Capa do livro Film Posters Horror (acima), com uma seleção gráfica dos melhores cartazes de cinema do mundo. Ao lado, cartaz do clássico de horror, Maldição de Sangue de Pantera (The Curse of the Cat People), desenhado por Jayme Cortez.

Cartaz de cinema do relançamento de Maldição do Sangue de Pantera, pela Polifilmes. Criação Álvaro de Moya e desenho de Jayme Cortez.

Jayme Cortez não era apenas um genial desenhista de histórias em quadrinhos. Ele usou seu talento para militar em diversas áreas das artes gráficas, como a publicidade, capas e ilustrações de livros, animação e tinha uma paixão especial pelo cinema. Além de atuar (isso mesmo! nosso desenhista participou como ator em filmes do Zé do Caixão!), ele foi um grande designer de cartazes da sétima arte. Entre tantos trabalhos realizados, um de seus melhores é destaque no livro Film Posters Horror, da Evergreen/Taschen Gmbh, lançado em 2006 (ao lado), que faz um levantamento dos melhores cartazes de cinema do mundo. Há obras de artistas de várias nacionalidades, entre ingleses, italianos, japoneses, alemães, americanos etc. Do Brasil, o único trabalho citado é este desenhado pelo mestre Cortez. Trata-se do clássico do produtor Val Lewton, The Curse of the Cat People, realizado pela RKO, com Simone Simon e Kent Smith.

No Brasil, a produção ganhou o nome de Maldição de Sangue de Pantera. Lançado em 1944 nos Estados Unidos, ele foi relançado pela Cinematográfica Polifilmes nos anos 60 e o poster (que vemos no alto) foi criado no Brasil por nada mais, na menos que a dupla de amigos Álvaro de Moya e Jayme Cortez. Aconteceu o seguinte: Moya era associado da distribuidora e recomendou o capista da revista Terror Negro, da Editora La Selva, para fazer o novo cartaz. E assim foi feito. Moya criou o layout e o texto e Jayme Cortez realizou a belíssima arte final, que foi destaque de página inteira no livro.

A dupla também produziu outro cartaz de um clássico relançado pela Polifilmes: trata-se de Ilha dos Mortos (Isle of the Dead), de Mark Robson, com o pst-ilhadosmortos-cortez-nteterno Frankenstein, Boris Karloff, além de Ellen Drew e Alan Napier (o ator que fez o mordomo Alfred na espalhafatosa série de TV Batman, dos anos 60).

Como curiosidade, Maldição de Sangue de Pantera foi iniciado pelo excelente diretor Gunther V. Fritsch, que foi considerado pela RKO um realizador muito lento para finalizar uma produção classe B e ele foi substituido pelo montador de Cidadão Kane, Robert Wise, que mais tarde dirigiria outros grandes filmes, como West Side Story, Noviça Rebelde e… Jornada na Estrelas – O Filme.

Mais uma coisa: o livro Film Posters Horror traz, no final, um índice dos filmes e outro com todos os artistas, designers e fotógrafos que criaram os cartazes dos filmes de horror citados. Mas, infelizmente, não adianta procurar o nome de Jayme Cortez. É que os editores da publicação escreveram o nome do desenhista errado! Lá, eles grafaram como arte de Payne Gomez. Uma pena. Desculpe o trocadilho, mas esse foi um erro nada cortês…
Por Francisco Ucha (com Álvaro de Moya)

Anúncios

Mônica cinquentona


Há cinquenta e três anos, Mônica deu a primeira coelhada em Cebolinha e conquistou o Brasil.

(Parecido com o que aconteceu em Thimble Theatre, que era uma tira de Segar desde 1919, mas no dia 17 de janeiro de 1929 surgiu um marinheiro figurante que tomou conta do recado. Transformou-se num dos maiores personagens dos Comics: Popeye!)

Na tirinha do Bidu publicada na Folha de S.Paulo, no dia histórico de 3 de março de 1963, Cebolinha trombou com  a personagem Mônica e mudou a história da história em quadrinhos no Brasil (clique na imagem grande do alto para ver essa tira histórica desenhada pelo Mauricio de Sousa).

Até então, embora sempre tivessem apoiado personagens brasileiros sem sucesso nas revistas e jornais, os editores alegavam que os leitores só aceitavam heróis estrangeiros. Mas a Folha deu apoio a um repórter policial do diário que sonhava fazer quadrinhos. E assim, apareceu em 1959, uma tirinha com o cachorrinho Bidu e seu dono, Franjinha.

Mauricio de Sousa sabia que um só verão não faz andorinha (ou uma só andorinha não faz verão?) e tratou de negociar com o jornal para ceder os caríssimos clichês de suas tiras, e viajou para as cercanias da região fornecendo tiras já em português e clichês em metal, aos jornais locais. Era um material que não necessitava de tradução, tampouco de refazer as letrinhas: já vinha pronto do forno.

monicafotontDesde sempre as suas criações eram baseadas na sua infância. O cachorrinho, o amigo que falava errado, o que não tomava banho e outros. Quando se tornou pai, precisava de mais dinheiro e criou Mônica à imagem e semelhança de sua filha. Inclusive com o coelhinho azul inseparável.

Então, tudo mudou no mundo dos quadrinhos brasileiros. Victor Civita, em 1970, acreditou e investiu num título, Mônica e sua Turma. A revista da Abril foi quase toda escrita e desenhada por Maurício, num esforço incomum. Existem reedições da sua atual Editora Panini que atestam a qualidade inicial do feito. Belo texto e traços originais e mais pessoais que os americanos.

Tanto que logo ganhou o prêmio máximo do Salão de Lucca então no auge do prestígio, o Yellow Kid e o Gran Guinigi, escolhido por um júri internacional.

A então poderosa empresa Cica divulgava o trabalho de Mauricio em desenhos animados na mídia, ao escolher o personagem Jotalhão para interpretar o elefante-símbolo do famoso molho de tomate. Isso colocou a Mônica e o Mauricio como um grande sucesso popular da televisão. Ele já tinha uma pequena infraestrutura, que criou baseada na distribuição dos comics norte-americanos do King, United, NEA e na produção dos estúdios do líder de todos: Walt Disney.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Brasil até teve alguns personagens nacionais de sucesso. Mas, hoje não há uma criança – ou adulto – que não conheça a dentucinha querida de todos. E ela cresceu e passou a viver novas aventuras na revista Turma da Mônica Jovem e até casou (no futuro?), com Cebolinha, seguindo o caminho do clássico Príncipe Valente que cresceu e teve filhos, na saga de Hal Foster.

Certa feita, Jayme Cortez, Mauricio e eu, estávamos no estúdio do maior criador dos comics no mundo, em Nova York. O nosso ídolo, o “Orson Welles dos quadrinhos”, Will Eisner. E o grande artista e empresário de sucesso declarou que Mauricio tinha sido mais esperto que ele: criara um “character” possível de virar boneca, animação, merchandising, etc. E seu “pobre” The Spirit era complicado demais para explorar o licenciamento.

Wolinski, a liberdade do humor


Não é de hoje que a censura persegue revistas que criticam o poder.  Na mesma França do ataque terrorista à Charlie Hebdo, há pouco mais de um ano, a revista La Caricature, do desenhista Charles Phillipon, foi apreendida em 1834 por ter publicado, também na capa, o rei com cabeça de pêra. Desde o Egito antigo, se faziam críticas de costume em papiros. Em Roma um desenhista fez uma caricatura dum cantor de ópera e a charge política teve seu apogeu na França. Depois, vieram os quadrinhos.

Sem fazer diferença nessa história, os assassinos de Paris, que invadiram o jornal satírico Charlie Hebdo em 7 de janeiro de 2015, ofendidos por uma caricatura de Maomé (a revista sempre criticou os ‘papas’), chamaram pelos nomes os ilustradores da revista, e os executaram. Eram Georges Wolinski, Cabu, Tignous, Honoré, Charb, que era também o editor.

Wolisnky,  o mais conhecido internacionalmente, esteve na Amazônia para ser jurado do festival local. Eu o conheci nos tempos dos Salões Internacionais de Quadrinhos de Lucca, nos anos 70, na Itália, e em Paris. No Brasil, seus quadrinhos provocantes foram publicados na revista Status e Penthouse.

Nasceu na Tunísia em 1934, de pai polonês e mãe italiana que imigraram para a França em 1952. Tinha jeito para desenho mas estudou só para não ser deportado. Em 1960 começou a carreira na revista Hara Kiri onde criou a série Eles Só Pensam Naquilo e se solidificou como erótomano. Criou também as séries Hit Parades e Não Quero Morrer Um Idiota, incursionando pelos quadrinhos. Colaborou com o jornal satírico L’Enragé e participou das manifestações de maio de 1968 na capital francesa. Aqui arrasava com o “establishment”.

Em 1970, foi um dos fundadores e primeiro editor de Charlie. Em 1977, virou chargista político do jornal comunista L’Humanité. Simultaneamente, colaborou no Libération e Paris Match. Também escreveu esquetes para TV, produziu teatro e, esporadicamente, bandes dessinées para l´Echo des Savanes e no seu derradeiro Charlie Hebdo.

Na história da humanidade, ativistas sempre foram alvo da ignorância e do atraso, sejam jornalistas, cartunistas, quadrinistas, ilustradores, artistas e sonhadores por um mundo melhor e mais engraçado.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
CLIQUE NAS IMAGENS ABAIXO PARA VÊ-LAS EM TAMANHO MAIOR
 

 

Os Strunfs não são mais aqueles

Depois que Hollywwod adaptou Os Strunfs (Les Schtroumpfs) ou os Smurfs para o cinema pensando no público americano, os famosos duendes azuis criados por Peyo, nunca mais foram os mesmos. Eles perderam o charme europeu. Os filmes realizados (foram dois até o momento!) strunfaram Les Schtroumpfs! Uma pena!

Mas, como eram os Strunfs (ou Smurfs) antes de eles invadirem Nova York? Como eles chegaram ao Brasil? Essa história começa em meados dos anos 70…

strunfs#2-capant

No longíncuo ano de 1975 os duendes azuis ganharam uma revista pela Editora Vecchi (imagens ao lado as duas primeiras edições). Sim… aqui no Brasil, os simpáticos personagens foram batizados como Strunfs, que é como se pronuncia “Schtroumpfs“. Segundo Otacílio d’Assunção, o nosso Ota, cartunista criador de pérolas como Dom Ináfio e dos incríveis Relatórios Ota, “o nome, com essa grafia, foi inventado pelo Lotário Vecchi, que era diretor de publicações”. Nessa época, o nome do Ota ainda aparecia no expediente das revistas em quadrinhos da editora como “Secretário” e, mais acima, Amália C. Vecchi era a “Editora e Diretora”. Mas todo mundo sabia que o editor de quadrinhos de verdade era o Ota mesmo. Essa injustiça foi corrigida em agosto, quando ele passou a ser creditado como “Diretor” nos expedientes das revistas em quadrinhos da Vecchi.

Mas, voltando aos Strunfs, na primeira edição da revista o “Secretário” Otacílio publicou um texto de apresentação dos Strunfs na página de abertura da revista que diz assim:

APRESENTANDO OS STRUNFS
No fundo da floresta, numa pequena aldeia em que as casas são do tamanho de cogumelos, mora um povo muito alegre e brincalhão que vive sempre na mais perfeita harmonia (ou quase!): são os Strunfs, uns duendes muito parecidos com os seres humanos – não no aspecto, mas na maneira de agir.

Os Strunfs são strunfados pelo Grande Strunf, que é o mais velho e o mais sábio de todos, responsável pelas decisões importantes da aldeia. Neste número, quando ele vai strunfar no mato à procura de algumas ervas medicinais que estão faltando em seu laboratório, os outros strunfs se strunfam para decidir quem vai ser o novo líder durante a ausência do Grande Strunf. E acabam strunfando uma votação que não deixa nada a dever às de verdade. O vencedor se torna o Strunfíssimo e as confusões que ele apronta como novo líder estõa nas páginas que seguem.

Mas como surgiram os Strunfs? Eles strunfaram pela primeira vez na revista francesa Spirou, como personagens secundários de uma aventura de Johan e Pirlouit (um cavaleiro da idade média e seu escudeiro). E o sucesso foi tão grande que logo eles passaram a ter uma historinha só para eles, e em seguida começaram a sair em álbuns de luxo. Seu criador, Peyo, é também autor de várias outras histórias importantes, todas elas inéditas no Brasil. E a Editora Vecchi, após o lançamento de Mad em Português, do relançamento de Pimentinha e vários outros personagens, está muito feliz por poder strunfar para o público brasileiro os Strunfs (como parte de uma nova série de lançamentos em quadrinhos que estarão nas bancas até o final do ano).

Foi assim que Os Duendes Strunfs chegaram ao Brasil. Para saber a origem dos Strunfs, leia este texto. Leia também o que foi publicado sobre os Schtroumpfs no blog As Leituras do Pedro, publicado a partir de Portugal. O legal é que, assim como eu, Pedro também escreve “à revelia do triste acordo ortográfico em vigor”. Ele correctamente escreve em português de Portugal, e eu corretamente em português do Brasil.

Para comprar alguns álbuns originais dos Strunfs você pode tentar este site.

O Almanaque dos Cômicos Famosos da La Selva


Em julho de 1960, a Editora La Selva reuniu num almanaque alguns dos mais famosos comediantes do cinema em preto-e-branco: O Gordo e o Magro, Os Três Patetas, e Abbott e Costelo. Esses personagens já eram publicados em revistas avulsas da editora e agora passeavam pelas 104 páginas do Almanaque dos Cômicos Famosos que, para efeitos de expediente, foi uma edição especial da revista Cômico Colegial.

A bela capa trazia expressões populares da época, como “Que bola” ou “40 mangos” (informando o valor da revista numa gíria). Na última capa, tentativas de fazer humor em quadro charges não tão felizes. Pouco importa. O mais interessante desta revistona é a qualidade dos desenhos das 12 histórias que compõe a publicação. Principalmente as dos Três Patetas, que foram ilustradas brilhantemente por Norman Maurer, como se pode apreciar nos exemplos publicados neste texto.

Um detalhe bastante curioso, é que Maurer era casado com Joan Howard, a filha de Moe, o rabugento chefão dos patetas. Por conta disso, a vida profissional desse talentoso desenhista esteve intimamente ligada ao do grupo de comediantes, e seu estúdio foi o responsável pela produção das histórias em quadrinhos do trio.

Maurer também produziu, escreveu e dirigiu diversos filmes dos Três Patetas depois que o contrato deles com a Columbia terminou, em 1957. E nos anos de 1965 e 66, foi o produtor executivo de uma série de desenhos animados com a trupe.

Outro trabalho interessante é o de Reuben Timmins para as quatro histórias de O Gordo e o Magro publicadas na revista. Se você acha que o desenho de Reuben lhe é famliar, você tem toda razão! Ele foi um dos animadores do famoso estúdio de animação dos irmãos Max e Dave Fleischer, que produziram, entre outras pérolas, a sensualíssima Betty Boop. Mas Reuben trabalhou como animador também nos Estúdios Disney e realizou ainda a série de animação de Jornada nas Estrelas (Star Trek).

Embora as histórias de Abbott e Costelo não estejam creditadas, a que abre o almanaque – O Caso do Ídolo Negligente – foi desenhada pelo casal Eric Peters e Lilly Renée. Talentosa, ela era a responsável pelos desenhos das mulheres sensuais que cruzavam o caminho da dupla atrapalhada, enquanto o marido desenhava os outros personagens. Veja do lado esquerdo a delicadeza do trabalho de Lilly Renée na finalização da personagem feminina (e fatal) dessa aventura.

Na divisão das histórias deste Almanaque dos Cômicos Famosos, a dupla Abbott e Costelo foi contemplada com cinco aventuras, enquanto que O Gordo e o Magro ficou com quatro, e Os Três Patetas com apenas três. Mas o número de páginas destinado a cada um deles foi muito equilibrado. Isso aconteceu porque as histórias dos Três Patetas são mais longas e elaboradas, e somaram 36 páginas no total. Este foi o mesmo número de páginas destinado à dupla Laurel & Hardy; enquanto que Abbott e Costelo, com maior número de histórias, ficou com apenas 31 páginas.

Este almanaque é um raríssimo e valioso item de colecionador que vale muito a pena resgatar.

Abaixo, mais páginas desenhadas com extremo talento por Norman Maurer, além da terceira página do almanaque (com o índice das histórias e o expediente) e da última capa.

Antonino, homem bom

Arte original da página 25 da revista Capitão Mistério #8, com todas as manchas, marcação de lápis feita sobre o papel couchê padrão fornecido pela Bloch. Drácula em A Viagem do Demônio, de 1983. Narra o improvável encontro entre Drácula e um lutador igual ao Bruce Lee.

Não sei exatamente o dia em que Antonino Homobono Balieiro apareceu em meu estúdio para apresentar o seu portfólio. Eu e minha mulher prestávamos atendimento para diversas empresas na área de design gráfico e conteúdo jornalístico. Sorrindo, com aquele seu jeitão despretensioso, uma cabeleira que chamava atenção, Antonino se mostrou um artista admirável, talentoso e humilde. Naquela típica tarde carioca, no início da década de 80, percebi que estava diante de uma grande personalidade, de um dos maiores desenhistas deste país e com quem tive o prazer de trabalhar.

Tive a honra de vê-lo em ação, em meio a pincéis e tintas. É… naquela época desenhistas usavam pincéis, tintas, bicos-de-pena, canetas nanquim, papel schoeller. Várias vezes o vi pintando, ao mesmo tempo, cinco, dez desenhos para entregar num prazo sempre muito curto (como já contei aqui). Homobono tinha um talento excepcional. Como me disse certa vez o desenhista e jornalista Ota (criador de diversos personagens, entre eles Dom Ináfio e ex-eterno editor da revista Mad), “ele era pau para toda obra”.

Antonino era especialista em resolver rapidamente problemas nas mais diversas áreas da ilustração: desde os quadrinhos às peças publicitárias. Ota sabia disso e como editor de quadrinhos da antiga Editora Vecchi (ele lançou diversas revistas totalmente desenhadas no Brasil) precisou da arte de Antonino, ou de Homobono, ou ainda de Balieiro (sim…Antonino assinava seus desenhos com um de seus três nomes), em várias publicações, tais como as excelentes revistas de terror Spektro e Sobrenatural, e as de faroeste Chet e Chacal.

Segundo o Ota, Antonino era uma espécie de curinga, graças à sua alta produtividade e rapidez em desenhar histórias em quadrinhos com qualidade. “Se precisava de alguma história de emergência era só dar pra ele que ele fazia rápido”, lembra. Muitas vezes Antonino tinha que cobrir os furos de outros desenhistas que não entregavam as páginas no prazo.

Um mestre na arte de desenhar, Homobono também desenhou histórias do Fantasma e do Sítio do Picapau Amarelo, da RGE (atual Editora Globo), e fez uma ótima série de Drácula na revista Capitão Mistério da Editora Bloch. Aliás, esse título foi um dos pouquíssimos bons lançamentos, nessa linha, da editora da rua do Russell. As revistas em quadrinhos da Bloch, em sua maioria, tiveram tratamento de quinta categoria.

Antonino tinha uma característica interessante: ao assinar seus desenhos ele escolhia um de seus três nomes. Isso fazia com que muitos leitores pensassem que eram três desenhistas diferentes. Mas Antonino, Homobono e Balieiro eram exatemente a mesma pessoa. Alguém que estava sempre pronto a ajudar os amigos e que não recusava trabalho. Aliás, sua profissão era o que o impulsionava e o inspirava.

Ele se tornou um grande irmão e confidente. Um amigo que deixa muitas saudades.

Antonino morreu de uma grave doença no coração. Poucas pessoas sabem disso. Ele não queria preocupar os amigos e não comentava com ninguém a respeito. Preferia aguentar sozinho. Ele era um verdadeiro herói brasileiro.


As imagens que ilustram este texto foram retiradas de histórias produzidas para a revista Capitão Mistério – Drácula, da Bloch Editores. No topo desta postagem e nesta imagem de cima, o incrível encontro de Drácula contra… Bruce Ling (qualquer semelhança com Bruce Lee é totalmente proposital!) na história A Viagem do Demônio, publicada no número 8 da revista.  A imagem superior, com Drácula, é da página de abertura da história A Semente do Mal, publicada no número 28. Logo abaixo, a moça na cama foi publicada na história Traficantes do Terror, do número 24, e mais abaixo, à direita, a página foi extraída da história A Vingança de Mary, publicada em Capitão Mistério #26.

Para variar um pouco, publico abaixo outra especialidade do mestre: desenhos de histórias de faroeste. Este foi para a capa da revista Chacal #20 – Série Tony Carson, publicada em janeiro de 1982.

El Motorista Fantasma na Vértice

El Motorista Fantasma foi uma revista em quadrinhos espanhola lançada em 15 de agosto de 1974 pela Ediciones Vertice, de Barcelona, sob o selo Mundi-Comics que trazia as aventuras do Motoqueiro Fantasma (Ghost Rider). A revista era quinzenal, se chamava Super Heroes Presenta e, no número 2, volume 2, trouxe as aventuras desse famoso personagem da Marvel que já foi adaptado para as telas do cinema em dois filmes estrelados por Nicolas Cage.

A publicação tinha o mesmo formato da revista Veja (20,5 x 27 cm), com capa em papel couchê (impressa somente de um lado!) e 64 páginas em papel jornal. As histórias em quadrinhos eram em preto e branco e essa edição trazia a aventura intitulada Infierno Sobre Ruedas, de Gary Friedrich, Jim Mooney, John Tartag, Tom Orzechowski e George Roussos (e versão espanhola de C. Rivero). A segunda parte da revista trazia uma história desenhada pelo Gil Kane: El Vale del Gusano.

Em vez de a capa reproduzir o desenho original dos Estados Unidos, a ilustração foi feita na Espanha. Essa era uma prática comum por lá que aumentava o mercado de trabalho e valorizava o desenhista espanhol. Pena que o autor dessa capa não foi creditado. Neste site, as capas da Vértice são creditadas também para o renomado desenhista espanhol Enric Torres-Prat “Enrich”, que se notabilizou desenhando, entre outros personagens, Vampirella. Será que ele foi o autor desta capa?

Já o colecionador e especialista em quadrinhos, Paulo Langer, informa em um grupo no Facebook, que esta capa é do grande artista espanhol, Rafael López Espí, “o mais profícuo dos ilustradores espanhóis, de sua época. Ele praticamente interpretava todos os títulos da Marvel que eram publicados na Espanha. E eram centenas de capas por ano”, define Langer. Para conhecer melhor o artista, visite este site.

Todos os tons eróticos de Valentina

Valentina e Neutron
Para a mulherada que está ouriçada com esses tons de cinza cinematográficos e, pior, tons de cinza em papel, sugiro a descoberta de Valentina, uma das mais eróticas personagens dos quadrinhos, criada por Guido Crepax em 1965. Valentina Rosselli é fotógrafa e surgiu como coadjuvante das aventuras de ficção-científica de Neutron, um desinteressante investigador que tem poderes especiais e é descendente de uma civilização subterrânea vinda de um lugar chamado Komyatan (pois é…). Mas logo a moça se tornou autônoma e tomou o lugar dele na história, tamanha a força de sua presença (ainda bem que Crepax viu o óbvio a tempo!). Ou seja, ela fez o que toda mulher interessante deveria fazer quando está ao lado de um boçal: tirar o cara da jogada!
Valentina: sexo na praia.
Belíssima, Crepax a desenhou inspirado-se na musa do cinema mudo, Louise Brooks, com cabelos negros curtos e olhos azuis. Depois que saiu da sombra de Neutron, as histórias da fotógrafa passaram a ter um forte conteúdo erótico com muitos momentos alucinantes de fetichismo e sadomasoquismo, e mostram uma mulher assumidamente bissexual, descolada e desinibida, sem ser vulgar.
Valentina, publicada na revista Grilo #33
Se existisse, Valentina teria feito 72 anos no dia 25 de dezembro de 2014. Ela nasceu em Milão em 1942. Tudo isso pode ser confirmado no livro Valentina: Biografia de Uma Personagem, lançado pela L&PM. A obra traz as suas primeiras histórias, desde a sua infância até o nascimento de seu filho. São elas: Intrépida Valentina, Intrépida Valentina de Papel, A Curva de Lesmo (que é a história onde conhece Neutron) e O Bebê de Valentina. Uma boa notícia, já que os poucos livros de Valentina lançados no Brasil estavam esgotados.
Valentina
E, só para finalizar, o fato é que, provavelmente, a “escritora” Erika Leonard James jamais leu nada de Crepax, caso contrário, provavelmente não teria o atrevimento de escrever tantos tons de cinza… Para Crepax bastaram o preto e o branco. E muita ousadia gráfica em seus desenhos.

Conheça o site oficial Valentina, de Guido Crepax, aqui.

Valentina em Riflesso. Publicada na revista AlterLinus #5

Valentina em Riflesso

valentina

 

Ken Parker, o homem que veio das montanhas

Quando Sydney Pollack resolveu filmar o clássico faroeste Jeremiah Johnson (Mais Forte que a Vingança, no Brasil), com Robert Redford (veja o trailer no YouTube), a partir de um emocionante roteiro baseado em dois livros – Mountain Man, romance de Vardis Fisher, e Crow Killer, uma história real escrita por Raymond W. Thorp e Robert Bun-ker –, ele jamais poderia imaginar que sua realização inspirasse Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo, dois dos maiores artistas italianos, a criar uma história em quadrinhos que se tornaria lendária. Mas foi a partir do conceito deste filme que surgiu Ken Parker, um dos mais cultuados personagens das histórias em quadrinhos italianas. “Rifle Comprido”, como é chamado pelos índios, é o próprio Redford desenhado. Em sua primeira aventura, ele ainda é um caçador que vive nas montanhas e vende peles de animais para sobreviver. E a semelhança com a realização de Pollack termina aí.

Para desenvolver as aventuras de Ken Parker, o roteirista Giancarlo Berardi e o desenhista Ivo Milazzo não trilharam o lugar-comum. Criativos e conscientes de que suas histórias ultrapassam o simples entretenimento, eles jamais iriam buscar o lugar comum em roteiros de faroeste. Na época, início da década de 1970, os dois trabalhavam nas histórias de Tiki, Il Ragazzo Guerrero, com as aventuras de um jovem índio da tribo Carajás, na Amazônia, que denunciavam a violência da região, o abuso das autoridades e o massacre de aldeias indígenas. Como se vê, argumentos pouco usuais, principalmente se considerarmos o período em que elas foram criadas.

Depois que a série de seis episódios de Tiki chegou ao fim, Berardi e Milazzo enfim, puderam se dedicar ao novo personagem. E em 1977 Ken Parker foi lançado na Itália, inicialmente para ter poucas histórias. Mas a nova revista se torna um sucesso, que se mantém por vários anos. Foram 59 edições regulares, além de uma série de 18 edições extras, e alguns álbuns especiais. A novidade é que, além de criarem aventuras absolutamente cinematográficas, Berardi e Milazzo incluem em suas histórias diversas referências culturais, sejam elas vindas do cinema, das artes plásticas, da literatura, além de referências históricas. Assim, os leitores da história em quadrinhos, viam personalidades como Marilyn Monroe (acima), Edgar Alan Poe, John Ford, Davy Crockett, Sherlock Holmes, King Kong (sim, o macaco também) e tantos outros, cruzarem o caminho de Rifle Comprido, um herói improvável, que muitas vezes se vê no olho do furacão, mas que sempre escolhe o lado do mais fraco e justo.

Ken Parker e a greve proletária: Milazzo e Berardi fazem uma homenagem ao famoso quadro O Quarto Estado, de Giuseppe Pellizza, que se tornou símbolo da luta dos trabalhadores, na história Um Hálito de Gelo. Acima, a versão colorida. Abaixo, o quadrinho que aparece na aventura.

No Brasil, a série original de Ken Parker foi lançada pela Editora Vecchi em novembro de 1978 e só terminou de ser publicada em no número 56, de agosto de 1983, ano em que a editora fechou as portas, deixando os leitores brasileiros sem as últimas seis aventuras (na Itália, a série durou 59 edições). Assim, o personagem ficou afastado das bancas brasileiras – exceto por algumas poucas edições esporádicas – até o ano 2000, quando a Mythos Editora passou a publicar uma nova série de Ken Parker, com 18 edições (batizada, na Itália, de Ken Parker Magazine). Além desta iniciativa, a Tendência Editorial e, em seguida, o Clube dos Quadrinhos-Cluq iniciaram o relançamento de toda a série clássica em formato maior e tiragem limitada, incluindo as quatro últimas aventuras que não haviam sido publicadas no Brasil (a editora Best News tentou continuar a série no início dos anos 1990 a partir do ponto que a Vecchi deixou, mas não passou de duas edições). Na verdade, esse relançamento foi uma iniciativa – e um verdadeiro tour de force – do editor Wagner Augusto, do Cluq, que passou a ter os direitos sobre os produtos de Berardi/Milazzo no Brasil.

Agora, novamente o Cluq é responsável pelo lançamento de quatro livros com aventuras inéditas de Ken Parker, publicadas originalmente na segunda metade da década de 1990 na Itália. Cada volume é encadernado com capa dura, tem mais de 180 páginas e é impresso em papel couchê. Os dois primeiros, lançados no final de 2013, são Os Condenados, no qual Ken Parker é prisioneiro numa colônia penal, e Nos Tempos do Pony Express, que relata as aventuras do herói quando adolescente. Neste início de ano chegam As Aventuras de Teddy Parker, que narra o encontro de pai e filho, e Cara de Cobre, emocionante história baseada num caso verídico sobre um índio que teve sua aldeia dizimada.

Wagner Augusto está à frente da bem cuidada edição e recebeu elogios da crítica especializada até na Itália, que considerou os quatro livros “belíssimos e elegantes”. Como é uma tiragem bem limitada, os quatro volumes não são encontrados na maioria das livrarias mais conhecidas. Mas, quem se interessar, pode encomendá-los no site comix.com.br ou pedir diretamente ao Cluq: Caixa Postal 61105, São Paulo, SP (cluq@terra.com.br).


Os novos livros de Ken Parker têm tratamento refinado: acima, uma página de As Aventuras de Teddy Parker; abaixo, uma página de Cara de Cobre.

O faroeste caboclo de Antonino

Antonino Homobono Balieiro
Hoje, dia 27 de abril de 2013, o grande desenhista Antonino Homobono Balieiro faria 60 anos. Já publiquei aqui e aqui diversos textos homenageando esta grande figura humana. Para comemorar esta data, desta vez falarei um pouco de seu talento para desenhar capas de livros de bolso e histórias em quadrinhos de faroeste e cowboys.
Rota do Oeste #1
Certa vez, quando o visitei, ele estava em seu estúdio pintando ao mesmo tempo umas doze ou quinze capas para uns livrinhos de bolso. Eram histórias do faroeste que seriam lançados em bancas de revista. A cena era inacreditável! Antonino fazia um incrível trabalho em série: primeiro pintava uma determinada cor em todos os desenhos. Depois passava para outra cor, e assim sucessivamente. Os desenhos iam ganhando cores e formas a partir do traço a lápis numa produção contínua. A tinta usada era guache, solúvel em água. Assim, os desenhos que ainda estavam úmidos de tinta, eram pendurados numa espécie de “varal” em cima de sua prancheta, para que pudessem “secar” enquanto ele avançava na pintura das cores seguintes.
Durango #10
Para se ter uma idéia do resultado final desse trabalho do Antonino, basta ver as três artes de capas acima. Os desenhos que ele pintava naquele dia, eram assim, nesse estilo. Seu cliente era uma obscura editora (se não me engano, a Nova Leitura), que publicava esses populares livrinos de bolso, tipo pulp fiction. O mercado para ilustração e histórias em quadrinhos no Brasil era muito restrito. Então, Antonino usada desses artifícios para sobreviver: produzia rapidamente e em quantidade! Bravo Antonino!
Chacal #23 - Série Tony Carson
Antonino Homobono Balieiro também fez diversos trabalhos para a Vecchi. Ele desenhou as capas de dois importantes personagens de histórias em quadrinhos dessa casa publicadora: Chacal (Tony Carson, acima) e Chet (abaixo), uma versão tupiniquim do Tex.
chet16nt
Na capa acima, de Chet, se percebe claramente que Antonino faz uma homenagem ao grande Joe Kubert, utilizando referências do trabalho desse desenhista. Abaixo, outra capa realizada para a mesma revista: a edição de número 21.
chet21nt
Mais abaixo, duas páginas desenhadas pelo mestre Antonino para as muitas aventuras de Chet que ele desenhou: a primeira é a página 55, da história “Dólar falsificado” (que apresenta um romance de Chet). A outra, é a nona página da história “Os Proscritos”. Repare na beleza do traço preto e branco do mestre Antonino. Inesquecível!
Chet -Dólar falsificado.
chet22-p09nt

A Gênese da Luluzinha

Luluzinha - Primeiras Histórias Volume 1
Já pode ser encontrada nas bancas de revistas e nas melhores livrarias do país o álbum de luxo Luluzinha – Primeiras Histórias. Esta publicação é, sem dúvida nenhuma, a mais bem cuidada já lançada no Brasil com a inesquecível personagem criada pela desenhista Marjorie Henderson Buell, ou simplesmente Marge. Lançada pela Ediouro, Luluzinha – Primeiras Histórias é uma belíssima edição com quase 130 páginas impressas em papel couchê e capa com acabamento em verniz UV, no formato 17x24cm. O livro reúne as primeiras aparições de alguns dos principais personagens da turma da Luluzinha. Além do Bolinha (é claro), aparecem Alvinho, Glorinha, Plínio e a famigerada bruxa Alcéia, em histórias publicadas entre 1945 e 1950.
Luluzinha e Bolinha
Nos Estados Unidos, a Dark Horse foi a responsável pelo lançamento dos álbuns com a personagem (veja alguns deles neste link da Amazon). Mas, ao compararmos com a edição brasileira, a versão americana perde feio! Para começar, as histórias publicadas nos primeiros volumes eram em preto e branco (na imagem abaixo, primeira página da primeira história de Little Lulu). Mas mesmo quando a editora começou a publicar as histórias em cores, foram mantidas as retículas de ponto aberto que eram usadas nas revistas impressas em papel jornal dos anos 50. Isso acabou dando uma aparência um pouco grosseira aos álbuns da Dark Horse, que já lançou 29 volumes de Little Lulu e quatro com Tubby (Bolinha).
Litle Lulu, Dark Horse
A única vantagem das publicações da Dark Horse é o número de páginas: cada livro tem em média 200 páginas (na nova série – Giant Size Little Lulu – o número de páginas impressiona: 600, no mínimo). Mas a vantagem pára por aí. A edição brasileira tem um formato maior e é muito bem cuidada. Todos os quadrinhos e cores foram restaurados e o trabalho, que consumiu meses de dedicação, ficou absolutamente primoroso. E o preço é outro destaque: o álbum da Ediouro custa apenas R$16,90! Uma bagatela pela qualidade do que é apresentado.
Luluzinha
Como se não bastasse Luluzinha – Primeiras Histórias vem com um complemento primordial (que a edição americana também não apresenta): vários textos espalhados pelo livro dão informações preciosas sobre a autora, sua criação, os desenhistas e a história de Luluzinha no Brasil. O autor dos textos – Otacílio d’Assunção – é, na verdade, o nome por trás do alto padrão de qualidade desse álbum. Especialista em quadrinhos, grande editor e cartunista, o Ota – como também é conhecido –  fez um esmerado trabalho de pesquisa e restauração dos quadrinhos publicados pela Dell. Esse trabalho especial ele já faz para a Pixel (selo de quadrinhos da Ediouro) desde 2011, nas revistas que essa editora publica mensalmente, entre elas, a revista da Luluzinha, do Bolinha e suas edições especiais.
Luluzinha e Bolinha
Não é a primeira vez que as histórias clássicas da Luluzinha ganham edições especiais no Brasil. Em 2006 a coleção lançada pela Dark Horse nos Estados Unidos ganhou uma versão no Brasil. Lançada pela Devir, o projeto de publicar essas histórias clássicas foi interrompido no sétimo volume da série.
Luluzinha, Bolinha e Alvinho
Agora, a Ediouro promete lançar novos volumes periodicamente. O segundo já estaria até pronto, só aguardando a data de lançamento (provavelmente em junho). Mas é importante destacar que essa nova coleção não repete a fórmula dos livros da Dark Horse. Nestes novos álbuns, as histórias são selecionadas a partir de uma linha editorial específica. No primeiro foram escolhidas as histórias de estréia de alguns personagens, como o Alvinho, na história “A babá do Alvinho” (imagem acima), publicada originalmente na revista Four Color 74, de junho de 1945 (veja a capa dessa revista abaixo). Outro exemplo é o Plínio, o garoto rico da turma, que aparece em duas histórias (ambas sem título): a primeira foi publicada em Little Lulu 16 (de outubro de 1949) e a segunda, em Little Lulu 19 (de janeiro de 1950). Nessas duas histórias, o Plínio ainda é um personagem em evolução, com características não totalmente definidas.
fourcolorcomic-74-1945-06junnt
As outras histórias de Luluzinha – Primeiras Histórias são:
“Luluzinha” e “A babá do Alvinho”, ambas publicadas originalmente na revista Four Color 74, de junho de 1945
• “Os alpinistas”, publicada originalmente em Little Lulu 1, de janeiro-fevereiro de 1948
• “O interesseiro”, publicada originalmente na revista Four Color 158, de agosto de 1947
 “O assalto ao cofrinho”, publicada originalmente em Little Lulu 10, de abril de 1948
Os apuros da Lulu
Nas três aventuras que fecham o volume, Luluzinha é uma contadora de histórias para acalmar o irrequieto Alvinho. “Os apuros da Lulu” foi publicada originalmente na revista Four Color 110, de junho de 1946. Em “A domadora de dragões”, que foi publicada originalmente na revista Little Lulu 25, de julho de 1950, surge uma bruxa bem similar a Alcéia. E a última história da edição – “O Bicho-Papão” – tem uma trajetória curiosa: ela ia ser publicada na revista Little Lulu 26, de agosto de 1950, mas foi vetada pela criadora da personagem. Marge achou que a figura do Bicho-Papão que aparece na história era assustadora demais para as crianças. Assim ela só foi publicada nos Estados Unidos em 1986, quando começaram as republicações da Little Lulu.
luluzinha-primeirashist-01-p82nt

As incríveis aventuras do Cavaleiro Negro

Cavaleiro Negro #1 - Setembro de 1952
A revista do Cavaleiro Negro, publicada a partir de setembro de 1952 pela Rio Gráfica e Editora (atual Editora Globo), foi uma das revistas de faroeste mais longevas já impressas no Brasil. Não podemos esquecer que The Lone Ranger (editado no Brasil pela Ebal com o nome de Zorro) e, claro, Tex, ultrapassaram em quantidade de edições o personagem da RGE. Mas, mesmo assim, a façanha do Cavaleiro Negro foi impressionante: sua revista chegou às bancas por mais de 20 anos e alcançou a marca de 245 números!
Cavaleiro Negro
Como as aventuras do Cavaleiro Negro eram curtas, ele dividia as páginas de sua revista com outros personagens do faroeste, como Ringo Kid, Arizona Raines, Apache Kid, Sierra Smith, Davy Crocket, Kit Carson, Daniel Boone, entre outras “histórias formidáveis de índios e de cowboys”.

Black Rider 1
Lançado em 1948, no segundo número da revista All-Western Winners, The Black Rider foi criado por Syd Shores para a Timely Comics (que, mais tarde, viria a se tornar a gigante Marvel Comics) e a partir do número 8 a revista passou a se chamar simplesmente de Black Rider. Enfim o Cavaleiro Negro ganhava seu próprio título nos Estados Unidos. Mas isso não foi o suficiente para transformá-lo num sucesso e a série de aventuras com o personagem foi cancelada no número 31, em novembro de 1955. Ele nunca conquistou os leitores americanos. Mas era um sucesso absoluto no Brasil.
Cavaleiro Negro #240 - Página 3
Com a série cancelada em seu país de origem, a RGE teve que encontrar uma solução para continuar publicando a revista, que vendia muito bem. O mais lógico seria produzir aqui as novas aventuras do herói mascarado, já que a editora contava com desenhistas do mais alto nível em seu departamento de arte.

Mas, por mais inacreditável que pareça, a “solução” dada foi a seguinte: outros personagens de faroeste passaram a ser “retocados e transformados no Cavaleiro Negro pelos desenhistas do staff interno da Rio Gráfica”. Essa revelação consta em texto não assinado – provavelmente de autoria de Otacilio D’Assunção – publicado na revista Gibi de Ouro – Os Clássicos dos Quadrinhos – Cavaleiro Negro, lançada em 1985 pela RGE. E isso quer dizer exatamente o que você, leitor, entendeu: através de retoques nos desenhos originais, o Cavaleiro Negro era colocado no lugar do herói de outras histórias de faroeste!
Cavaleiro Negro #240 - Deus do mal
Mas essa falta de respeito com os quadrinhos, os desenhistas e os leitores, durou algum tempo até que, finalmente, a direção da RGE tomou juízo e as aventuras do personagem passaram a ser produzidas no Brasil. Assim, o Cavaleiro Negro ganhou os traços de mestres como Gutemberg (a capa da edição 106, reproduzida abaixo foi desenhada por ele), Walmir, Milton Sardella, Juarez Odilon, entre outros. Mesmo assim, de vez em quando, aventuras de outros caubóis menos importantes continuavam a ser retocadas e transformadas em histórias do caubói mascarado.
Cavaleiro Negro #106 - Capa de Gutemberg
O grande desenhista Gutemberg Monteiro, que fez sua carreira nos Estados Unidos, desenhou diversas histórias do Cavaleiro Negro, como estas páginas reproduzidas abaixo e que fazem parte da história “Balas Marcadas”, publicada na revista do Cavaleiro Negro #113.
Cavaleiro Negro #113, por Gutemberg
Cavaleiro Negro #113, por Gutemberg - página 17
Cavaleiro Negro - quadrinho na página 18, por Gutember.
Muitos desenhistas de talento também produziram histórias de Black Rider nos Estados Unidos. Curiosamente, Jack Kirby foi um deles. Provavelmente a página e o quadrinho que reproduzimos abaixo são trabalhos de Kirby. Pena que a aventura “A luva negra!” não veio creditada.
Cavaleiro Negro #240 - página 20
Cavaleiro Negro #240 - p24
Finalmente, em 1972, a revista do Cavaleiro Negro também estava prestes a ser cancelada pela RGE por absoluta falta de material. Assim, o então diretor de arte, Primaggio Mantovi, decidiu transformar as histórias de Gringo – um personagem de faroeste produzido na Espanha – em aventuras do Cavaleiro Negro, voltando a usar novamente a execrável solução de retocar o personagem. A culpa obviamente não era dele, já que a direção da RGE não lhe dava condições de produção de novas histórias. Mas essa curiosa história será contada em outra postagem.

Abaixo três reproduções de capas da revista Black Rider, publicadas no início da década de 50 nos Estados Unidos.

Nem sempre eram os melhores do mundo

World's Finest Comics #253
A revista World’s Finest, da DC Comics, foi lançada nos Estados Unidos em 1941 quase como um almanaque de 96 páginas e publicada até janeiro de 1986. A primeira edição saiu com o nome de World’s Best Comics, mas já no número 2 a revista ganhou seu nome definitivo. Ela foi criada para publicar, principalmente, as aventuras dos dois principais personagens da editora: Super-Homem e Batman – e seu parceiro Robin –, inicialmente em histórias separadas. Com a diminuição do número de páginas a partir da edição 71 (de julho de 1954), Batman e Super-Homem passaram a dividir as mesmas aventuras juntos. Várias dessas histórias foram publicadas no Brasil pela revista Invictus, da Ebal.

A partir da década de 70, outros heróis passaram a fazer parte do cardápio da revista, entre eles, Lanterna Verde, Arqueiro Verde, Aquaman, Mulher Maravilha, Doutor Destino, Gavião Negro, Ajax o Marciano. A partir da edição 244, a World’s Finest passou a fazer parte do grupo de revistas da DC chamadas de “Dollar Comic” por causa do aumento do número de páginas, da quantidade de histórias por edição e do aumento de preço também: a revista passou a custar 1 dólar.

Nessa época, algumas edições apresentaram uma novidade: a capa da revista continuava sua ação na quarta capa, como os dois exemplos que ilustram este texto. A capa do alto é da edição 253, de novembro de 1978, que trazia histórias de Batman & Super-Homem; Arqueiro Verde & Canário Negro; o Rastejador (The Creeper, do Steve Ditko); e Capitão Marvel. Já a capa de baixo é da edição 257, de Julho de 1979, que além do Homem-Morgego e do Filho de Kripton, trazia as aventuras do Raio Negro, Arqueiro Verde, Gavião Negro e Capitão Marvel.

As duas capas foram desenhadas por Jim Aparo, mas a maioria das histórias que a revista publicava não eram boas.
World's Finest Comics #257
Essas imagens podem ser baixadas em ótima resolução. Para tanto, basta clicar nelas.